7.11.04
André de Leones
INT. LANCHONETE - DIA.
O lugar está praticamente vazio. JEAN e FABIANA estão sentados a uma mesa qualquer. Tomam suco. Jean folheia um livro grosso.
FABIANA
- Odeio ler. Prefiro ir à praia.
JEAN
- Aqui não tem praia.
FABIANA
- Pra você ver o quanto minha vida é sacal.
Jean sorri sem desviar os olhos do livro, de tal forma que não se sabe se ele ri do sarcasmo de Fabiana ou de algo que tenha lido.
FABIANA
- Você sabe, eu divido minha vida em fases.
JEAN
- Todo mundo faz isso.
FABIANA
- Não como eu faço.
Breve silêncio. Ela toma um grande gole de suco. Ele continua concentrado em folhear o livro.
FABIANA
- Quer saber como é?
Novo silêncio. Após um momento, Jean fecha o livro e a encara.
JEAN
- Diz aí.
FABIANA
- Ok, obrigada. É o seguinte: eu divido meus dias, todos eles, todos os dias da minha vida, em duas categorias: "na praia" e "longe da praia". Pensando nos dias que passei na praia e nos dias que passei longe da praia, concluí que amo os dias que passei na praia e alimento sentimentos que variam entre tristeza e ódio puro pelos dias que passei, ou passo, longe da praia. Levando-se em conta que, em dezessete anos de vida, passei um total de cento e vinte e três dias na praia, dos quais treze dias foram ainda dentro da barriga da minha mãe, já grávida de mim em sua lua-de-mel, bem, dá pra imaginar que tipo de sentimento eu tenho pela joça da minha vida em geral.
Silêncio. Fabiana toma outro gole de suco. Jean sorri.
JEAN
- Eu... eu nunca fui muito fã de praia.
- Em Hoje está um dia morto.