3.11.04

Teu desejo é que os objetos se mantenham em silêncio. Talvez teu único desejo seja que os objetos se mantenham em silêncio. Mais tarde pensarás "desejo que os objetos e as aparências se mantenham em silêncio" e enquanto pensas irás deslizando na escuridão.

Mas agora estás de pé, frente à pia da cozinha. Embora agora estejas de pé, frente à pia da cozinha, é possível que estejas aí há algum tempo. Ou que tenhas acabado de chegar e ficado simplesmente aí. Não tem importância. Poderias estar de pé frente à pia da cozinha escutando música. Mas não há música. Quando quer que tenhas chegado, ou depois, não colocaste música. Se houvesse música não estarias aí, de pé, olhando para baixo. Pensar na música como algo que, se existisse, soaria tão distante que o sentido de sua presença não poderia nunca chegar até aqui. Pensar no contrário da música. Pensar em um homem parado frente à pia da cozinha em silêncio. Pensar no que o homem vê e em seu desejo de que os objetos se mantenham em silêncio. Pensá-lo de tal modo que também as aparências se mantenham em silêncio. Pensar que de qualquer modo não tem importância.

(Uma ação qualquer, que pudesse ser silenciosa. Que pudesse estar sendo controlada por outros motivos, nos quais não faria falta refletir longamente. Ou que fosse tão insignificante que não faria falta refletir longamente. Uma ação na qual as aparências se mantivessem em silêncio: se estivesses de pé, frente à pia da cozinha, bastaria que -- num momento que poderia ser qualquer outro -- caísse uma gota de água da torneira. Ou nem sequer isso. Daria no mesmo se ficasses a imaginá-la. Ou nem sequer isso. Embora nada acontecesse, esse acontecimento poderia a tudo desconcertar. Tal a fraqueza de teu álibi.)


Aníbal Cristobo