1.11.04



Estou fritando ovos e converso comigo mesma. Amanhã é dia dos mortos e não sei se B. telefonará para irmos ao cemitério. Meu deus, eu não sei conversar com gente morta. Não é coisa que se aprende na escola ou em livros de filosofia. Aprendemos a chorá-los e a levar flores. Mas quem disse que gostam de flores e de gente lamurienta e viva ciscando em volta de seus túmulos? Talvez eu pudesse distraí-los. Botá-los a par das novidades. Das últimas descobertas da ciência. Das últimas guerras. De uma mudança nos hábitos. Do fim das baleias. Se o Messias voltou afinal. Se o mundo acabou. Se os extraterrestres chegaram. Eu poderia conversar muito e ninguém se importaria de ver-me falando sozinha. Nos cemitérios podemos ser loucos sem chamar atenção. Dizer-lhes que ainda não descobriram a vida eterna mas que falta pouco seria sacanagem da minha parte. Penso então numa piada, na história de um filme que eles não viram, numa música. Sim, uma música. O que um morto gostaria de saber? Adoço meu café e o sol tremelica na janela da cozinha. Por que Deus não sai daqui e os deixa tão sozinhos?