3.10.04

III


"mamãe, mamãe". do alto das pedras vejo minhas bonecas nadando no mar lá embaixo. elas batem suas perninhas brancas de borracha trazendo ainda nos pés os sapatinhos novos com que as calcei hoje de manhã. não sei por que elas gostam de nadar com aqueles sapatinhos. vão acabar se estragando. mas minhas bonecas não me obedecem. elas nadam com dificuldade. as ondas batem nas pedras e respingam minha roupa. hoje não é um dia apropriado para nadar. mar agitado, muita névoa, nem os pescadores saíram para pescar. mas minhas filhas não me obedecem. oito perninhas sobem e descem. daqui de cima posso vigiá-las, protegê-las. "mamãe, mamãe", eu disse quando abri a caixa gigantesca com quatro bonecas dinamarquesas que minha mãe trouxe para mim de sua última viagem. mamãe nunca mais viajaria. cada boneca era quase do meu tamanho. eu era adulta num corpo de criança, minha mãe me explicou que essas coisas costumam acontecer com determinadas crianças, que eu não devia me importar com isso. como eu vivia triste por ser adulta, ela ficou com pena de mim e me trouxe as bonecas sem que eu tivesse pedido. eu não gosto de bonecas. tenho medo delas, aqueles olhos parados, brilhantes, fixos. não sei como elas conseguem nadar se não enxergam nada. se são de borracha. eu também deveria ser de borracha para que minha mãe pudesse me carregar sempre com ela em suas viagens. mas meu pai disse que nesta última viagem de minha mãe ninguém poderia ir com ela, nem uma boneca. ele acha que eu não sei que mamãe morreu, papai não sabe que sou adulta, eu só contei para minha mãe. um segredo entre nós. as bonecas sabem.