10.10.04

Copacabana é um bairro onde se pode viver tranquilamente, desde que se seja louco. E não só pelas mulheres, diga-se de passagem, nem tampouco pelos transístores ou pelos veados, que esses os há em toda parte; mas pela ausência completa de lógica nas coisas mais simples e mais humanas, como encontrar um amigo, por exemplo. Uma vez encontrei um amigo de infância que não via havia muitos anos; empurrei-o de encontro à parede, abracei-lhe o pescoço, o tórax, o abdome e a bacia, puxei-lhe os cabelos que aliás já estavam ficando escassos, dei-lhe tapinhas no rosto, nas costas, nos rins, nas pernas, na bunda, mal continha a emoção de enfim encontrar um amigo entre tantos inimigos ou indiferentes, fiz em suma tudo que era possível fazer na circunstância ou mesmo fora da circunstância: quando vi, o homem se chamava Harald Haardraade, era norueguês de nascença e por convicção, acabara de chegar de Oslo ou de Jostedalsbra não estou bem lembrado, não entendia uma palavra do português e pelo visto não tinha o mínimo interesse em aprender. Pior, muito pior, foi o outro que, não sei se pago pelo tal norueguês, me abraçou algum tempo depois em plena avenida Atlântica, o mar que era uma beleza, e no mais puro sotaque nordestino me perguntou que fazia eu que não aparecia mais em Itapecuru-mirim, pois aquela garota de Cajapió vivia sempre a perguntar por mim, o Manuel Rosendo se casara o mês passado com a filha do prefeito de Chapadinha, ia se candidatar a vereador para ver no que dava o cabaço da desinfeliz, e mais isso e mais aquilo, como então hein seu, uma efusão que me deixou de certo modo comovido; quando nos separamos, após muitas juras de eterna amizade, foi que dei pela falta da carteira, do relógio, da caneta-tinteiro e até de um lenço de estimação, que me teria pelo menos servido para enxugar as lágrimas da separação.


Campos de Carvalho, em O púcaro búlgaro, 1964.