26.9.04

Tu És o MDC da Minha Vida



Tu és o grande amor da minha vida
Pois você é minha querida
E por você eu sinto calor
Aquele teu chaveiro escrito "love"
Ainda hoje me comove
Me causando imensa dor
Eu me lembro
Do dia em que você entrou num bode
Quebrou minha vitrola
E minha coleção de Pink Floyd
Eu sei que eu não vou ficar aqui sozinho
Pois eu sei que existe um careta
Um careta em meu caminho
Ah! Nada me interessa nesse instante
Nem o Flávio Cavalcanti
Que ao teu lado eu curtia na TV
Nesta sala hoje eu peço arrego
Não tenho paz nem tenho sossego
Hoje eu vivo somente a sofrer
E até o filme que eu vejo em cartaz
Conta nossa história e por isso eu sofro muito mais
Eu sei que dia a dia aumenta o meu desejo
E não tem Pepsi-Cola que sacie
A delícia dos teus beijos
Ah! Quando eu me declarava, você ria
E no auge da minha agonia
Eu lhe citava Shakespeare
Não posso sentir cheiro de lasanha
Me lembro logo das Casas da Banha
Onde íamos nos divertir
Eh! Hoje o meu Sansui-Garrard-Gradiente
Só toca mesmo embalo quente
Pra lembrar do teu calor
Então, eu vou ter com a moçada lá no píer
Mas pra eles é careta
Se alguém fala de amor
Na faculdade de Agronomia
Numa aula de energia
Bem em frente ao professor
Eu tive um chilique desgraçado
Eu vi você surgindo ao meu lado
No caderno do colega Nestor
Por isso, é por isso que de agora em diante
Pelos cinco mil alto-falantes
Eu vou mandar berrar o dia inteiro
Que você é
O meu
Máximo
Denominador
Comum


Poesia sem título (1972)
Eu não pertenço ao domingo ensolarado
Meu pijama branco e largo
Que eu arrasto pela sala
Pela sala de jantar
Já não m'importa , o que m'importa nesse instante
É o meu vagar constante
Sob o peso dessa estante
Que eu vasculho até dormir
Meu quarto escuro sob os olhos de coruja
Boca seca e roupa suja
O coração se enferruja
Ao contato do verniz
Eu não pertenço nem à flor nem à espada
Tenho é u'a fome desgraçada
Minha cara engarrafada
Mais parece um guaraná


Raul Seixas