19.9.04

A realidade é que sem ela não há paz, não há beleza, é só tristeza e a melancolia que não sai de mim, não sai de mim, não sai. Eram quase duas da manhã quando pisei no Arpège, lotado aquela noite. Tom Jobim, todo muito sincopado, espremendo do piano queixas de amor com uma nova batida que o público não entende, só se balança. Pra mim aquela bossa não dizia nada, nada que Cole Porter já não tivesse dito, e melhor. Peço um White Horse duplo, sem gelo, e fico por ali em suspenso, fumando e assobiando baixinho De cigarro em cigarro, do Bonfá. De cinco em cinco minutos meu olhar se despeja nas mesas, procurando Dindi. Encostado na parede ao meu lado, um sujeito lê no Correio da Manhã a inauguração da nova capital federal. Na luz fraca da boate vejo a foto daquela cidade de sonho talhada no deserto. Um chapadão de arquitetura arrevesada e megalomaníaca, pra assustar e afastar a calangada revoltada dos centros de decisão. Mas se ela voltar, se ela voltar que coisa linda, que coisa louca, pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os Vejo o corpo de Silvinha cruzando a fumaça e meu coração acelera. Silvinha chegando é só encantamento. Não precisa de música. Ela senta na minha mesa sem tirar os olhos do piano, a mão suada apertando a minha. Silvinha não sabe que amanhã vou pra Brasília e nunca mais nos veremos. Foi assim que combinamos, desde o início. O fim não seria anunciado. Ela marca o meu copo de batom e antes de sairmos dali apaga um último cigarro no cinzeiro de cristal.