23.9.04

To hell and back



Agora fiz a minha primeira carnificina. Não sinto náuseas, não sinto orgulho, não sinto remorso. Há só uma entediante indiferença que me acompanhará durante toda a guerra... Tive de abandonar a idéia de que a vida fosse sagrada... No dia da rendição alemã, nas ruas da Riviera apinhadas de gente comemorando, eu senti apenas uma vaga irritação. Lá fora há o Dia da Vitória, mas por dentro não há paz. Como num filme de terror rodando de trás para frente, as imagens da guerra piscavam em meu cérebro... feito um incêndio que tivesse tomado conta desta casa humana, deixando apenas a carcaça carbonizada de algo que já foi verde. Em poucas horas eu não suportei mais. Voltei para o meu quarto. Mas não conseguia dormir. Minha cabeça rodava. Quando criança me disseram que a guerra estigmatizava os homens. O estigma foi colocado em mim? Os anos de sangue e ruína me despiram de todo sentimento de decência? De toda crença?... Creio na força de uma granada de mão, no poder da artilharia, na precisão de uma Garand. Creio em matar antes de ser morto.


Audie Murphy, na autobiografia To Hell and Back, de 1949. O mais condecorado dos heróis americanos da Segunda Guerra Mundial, célebre ator de Hollywood, Audie viveria em desespero até o final de sua vida, em 1971, por conta de sua participação numa guerra onde adquiriu a consciência da sua própria capacidade de matar.