19.7.04

Os armazéns, as docas, o arsenal da marinha e a inspetoria da alfândega. Brazil: estava escrito acima, encimado por um telhado que caía em declive, 1892, a Companhia Docas de Santos estabelecida no Valongo, 14 km de cais acostável hoje. A armadora britânica de Lamport & Holt . Dezesseis navios fundeados na barra, 39 sendo esperados nas próximas 48 horas, 28 atracados no porto público, três nos terminais, o som alto de uma música techno, os cachorros pouco ferozes e muito famintos, as sobrancelhas erguidas, as digitais cheias de tinta aplainadas nos papéis. Ele encostou em um container e deixou que a brisa quente da baía entrasse & naufragasse pelos seus cabelos. Passou a mão no pescoço e acendeu um cigarro. O carregamento de banana e de café, as moscas e os cargueiros do píer 45. Levantei a cabeça: os adeuses aos adeuses pequenos, que acontecem nas noites e nos cargueiros, entre as peças de prata das pulseiras, entre diafragmas que se abrem e fecham em segundos, em papéis propositadamente envelhecidos mais tarde no laboratório. Perfumes de gardênia, boleros de satã, um poema de Pound misturado às ondulações marinhas, e os olhos dele percorreram o mapeamento dos insetos que aqui habitam, verificando toda a sua exatidão.
 
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Debrucei na sacada do apartamento e olhei minúsculos pontos ao longe, embarcações que carregam mercadorias & almas errantes & livros salubres & teares & tapeçarias. Essas embarcações que andam pelos mares e que diferem das que eu tão bem conheço, que navegam em rios lentos, densos e turvos. Como o Mekong debaixo do sol, as moscas sobre a balsa, os olhos baixos, os romances franceses. Olhei a rua lá embaixo, minúsculos pontos que se moviam, grãos de trigo rolando sobre a rua, as sacas de trigo roídas por ratazanas devassas, nos armazéns do porto. O que mesmo, eu faço aqui? Eu fotografo, é o que eu sei fazer. E assobio uma ária de Verdi. Santos, praia do Gonzaga, primeiro semestre de 2004, o apartamento no escuro, a sala com piso de lajota, as fotos do Mekong na parede, o poema de Elliot: ruivo, ruivo rio.
 
 
O Caderno Lilás de Karim Blair