27.7.04

O medo é o único e verdadeiro adversário da vida. Só o medo pode derrotar a vida. Ele é um adversário inteligente e traiçoeiro, eu bem sei. Vai atrás de nosso ponto mais fraco, o que encontra com infalível facilidade.  Ele começa em nossa mente, sempre. Num momento estamos calmos, com autocontrole, felizes. Então o medo, disfarçado de dúvida, entra furtivamente em nossa mente feito um espião. A dúvida se encontra com a descrença e a descrença tenta enxotá-la. Mas a descrença é um soldado de infantaria pobremente armado. A dúvida acaba com ela sem muito problema. Ficamos ansiosos. Surge a razão para lutar por nós. Sentimo-nos tranqüilizados. A razão é totalmente equipada com a tecnologia das armas mais modernas. Contudo, para nosso espanto, apesar de sua tática superior e de inúmeras vitórias inegáveis, a razão é derrubada. A gente se sente enfraquecendo, oscilando. Nossa ansiedade se transforma em pânico.

O medo em seguida volta-se com força total para o nosso corpo, que já sabe que algo de terrivelmente errado está acontecendo. A essa altura os pulmões já voaram para longe como um pássaro e as tripas fugiram ziguezagueando como uma serpente.  A língua então cai morta feito um gambá, enquanto o maxilar se põe a galopar em seu lugar. Os ouvidos ensurdecem. Os músculos começam a tremer como se dominados pela malária e os joelhos a sacudir como se dançassem. O coração se esforça demais e o esfíncter relaxa demais. E assim acontece com o resto do corpo. Cada parte de nós, da maneira que mais lhe convém, se desintegra. Só os olhos funcionam bem. Sempre prestam atenção correta ao medo.

Logo passamos a tomar decisões precipitadas. Descartamos nossos últimos aliados: a esperança e a confiança. Aí, nós mesmos já nos derrotamos. O medo, que não passa de uma impressão, triunfou sobre nós.

 
Yann Martel, em Life of Pi, 2001.