23.7.04



No começo eu até gostei da pinta dele, daquela cara de quem abusava do açúcar. Olhos de frade. Ele me pediu que eu mudasse de nome. Eu mudei. Dizia que eu tinha nome de boneca velha e que só de pensar ficava broxa. Durante seis anos fui Deborah. Ele nunca broxou com Deborah. Depois passou a implicar com a minha profissão. Não se conformava por eu saber exatamente qual era o tamanho do nariz de Cleópatra. Eu parei de trabalhar e mudamos de cidade. Eu queria amá-lo e sofrer ao lado dele. Principalmente sofrer, porque no amor sigo a cartilha de são Paulo: "Eu completo na minha carne o que faltou à Paixão do Cristo." Vivemos juntos por algum tempo. Nosso lar, uma câmara de eco.  Eu gostava de ver navios, os dias foram passando e me acostumei a não olhar mais pra mim.  Mas todo céu tem um inferno logo ali e uma noite o eclipse de nós dois acabou.  O saco de pipoca estourou no cinema. Hoje sou Emília de novo. Cirurgiã plástica. Rio de Janeiro. Consultas às segundas, quartas e sextas, no mesmo endereço e telefone. Obrigada.