12.6.04

Memórias de um ex-escritor (XIV)


Pedra que rola não cria limo, dizem os gaúchos. Muito menos identidade, seria bom acrescentar. Hoje, quando perguntam qual é minha cidade, tenho de refletir. Para começar, não nasci em cidade. De minha mais que metade de século, em Dom Pedrito só vivi seis anos, de 1958 a 63. Quase o mesmo tempo que vivi em Paris. Quando se tem muitas cidades nas costas, temos de estabelecer critérios para definir o que seja "minha cidade". Talvez seja aquela em que nos defrontamos com os primeiros embates existenciais, os primeiros desafios profissionais, a primeira mulher na qual apostamos tudo. Neste sentido, minha cidade é Porto Alegre. Foi lá que fiz minhas universidades, escolhi profissão, ganhei meu primeiro salário. E foi também lá - conquista mais importante que qualquer outra - que encontrei a companheira de toda uma vida, hoje ausente.

Verdade que me sinto muito mais em casa em Madri ou Buenos Aires, é como se sempre tivesse vivido nelas, enquanto na capital gaúcha ainda tenho um pouco a sensação de peixe fora d'água. Seqüelas da infância na fronteira. Em verdade, sempre me senti mais platino, uruguaio, hispânico, que brasileiro. Ao falar espanhol sinto um prazer que o português não me dá.

Em 77, quando recebi bolsa em Paris - do governo francês, que o brasileiro jamais me concedeu qualquer favor - meus professores não entendiam por que razões não escolhera obra de autor brasileiro como tema da tese. Não foi muito fácil explicar que a literatura brasileira pouco ou nada me dizia.

O Brasil ainda não produziu um poema que possa ombrear com o Martín Fierro, nem escritores do porte de um Roberto Arlt, Ernesto Sábato ou José Donoso. Machado de Assis, desculpem-me os machadianos, é literatura água-com-açúcar, tanto que é permissível em qualquer escola secundária, até mesmo religiosa. Se um escritor entra nos círculos didáticos oficiais, é porque sua literatura já perdeu seu potencial subversivo. Quando Machado começa a escrever, há um mundo editorial tão incipiente no Brasil que os escritores tinham de publicar em Paris. Como dizia Fernando Pessoa, sobre um pano de fundo de nada qualquer coisa se destaca.

Guimarães Rosa, perdoem-me os rosianos, é um elefante branco criado pela universidade brasileira. Impossível negar seu talento de poliglota e criador de uma linguagem, mas é o menos lido e mais citado dos ficcionistas brasileiros. Escreve para uma elite que sequer o lê. As tiragens de suas obras só foram possíveis porque impostas em currículos acadêmicos.

Erico Verissimo, gostei muito de conversar com o homem, mas o escritor não me diz nada. É outra planta de estufa universitária. O gaúcho pintado por Verissimo é uma ficção ao estilo dos Centros de Tradições Gaúchas, nada tem a ver com nosso homem de fronteira. (O gaúcho mesmo, sem pilchas nem fanfarronadas, está em Aureliano Figueiredo Pinto, um dos injustiçados da cultura gaúcha. Memórias do Coronel Falcão, editado postumamente, foi sufocado pelos donos da cultura na capital, entre outras razões porque continha "espanholismos".) Erico foi homem urbano, nada conhecia da vida de campo. Ele próprio jamais se considerou escritor, apenas um contador de histórias. O problema em torno a Verissimo é a simpatia e calor humano que dele emanavam. Depois de uma charla com ele, não era fácil ir aos jornais e dizer o que se pensava de sua literatura. As novas gerações têm a vantagem de não sofrer este constrangimento, e talvez dentro em breve sua obra seja avaliada com isenção. Mais ainda: Erico foi covarde e omisso em relação ao comunismo. Conto mais adiante.

Jorge Amado, cortesã de alto bordo, foi nazista, stalinista, cúmplice das duas ideologias mais assassinas que empestaram o século, e vira qualquer coisa que lhe renda fortuna. Apoiou Collor de Mello na tentativa de colocar o Itamaraty em sua campanha desesperada para receber o Nobel. Suas traduções no mundo todo se devem à sua cumplicidade com o fascismo eslavo. A bem da verdade, tem um belo livro, e um só: Os Velhos Marinheiros.
Escritor de porte, para competir na literatura universal, penso que o Brasil tem apenas um, o Nelson Rodrigues. Só começou a ser descoberto depois da queda do Muro de Berlim. Seu teatro tinha livre trânsito, afinal denunciava as "contradições da burguesia". Como malhava as esquerdas em suas crônicas, o Nelson cronista sempre foi maldito nos círculos intelectuais do país. De qualquer forma, em matéria de literatura, sempre me senti melhor freqüentando os hispânicos. Mas adoro reler o Nelson, o das crônicas. Escritor bom é o que gostamos de reler. Os outros passam. "Só escrevo para ser relido", dizia Gide. Como dizia D. H. Lawrence, é melhor ler um livro seis vezes do que seis livros.


Janer Cristaldo