14.6.04

Aquele que fosse capaz de atravessar o espelho do seu próprio tempo para habitar o meu tempo não veria nada demais. Perderia a viagem. O meu mundo, que lhe é estranho, mostraria uma mulher à mesa, tarde da noite, um braço jogado sobre papéis movimentando-se da esquerda para a direita. "Ela está escrevendo, diz aqui", pensaria o alienígena com os seus catálogos. Eu mesma não perceberia a sua presença de tão recolhida que estaria em minhas próprias ilusões. Além disso, o estranho -- o Outro que veio do seu mundo para me conhecer -- seria uma hipótese nebular, sem cheiro, sem cor, sem voz. Porque a voz que eu procurava estava ali no papel. Nas linhas em branco que eu precisava preencher para me julgar criativa. Mas isso o estranho não sabia. Ele só tinha que observar e de sua observação extrair uma fonte de conhecimentos inúteis que para ele seriam úteis lá no tempo de onde veio. O estranho para mim não era ninguém. Mesmo que ele fosse a simples presença de um ovo ou de algo mais picante no aparador da cozinha, eu não saberia. Era ele que buscava conhecer os meus sentimentos, não o contrário. Como eu não ouvia sua voz -- ele não era interativo -- para mim o tempo dele não existia. Era uma paralisia, uma máscara sem rosto. Se arregalasse os olhos, mesmo assim eu não o veria. Se me tocasse, eu não sentiria. O Outro para mim já não existe mais. Aprendi com o meu tempo que o Outro é o meu próprio corpo, o qual adestro regularmente com dietas de baixas calorias, exercícios, overdose de vitaminas e sexo seguro. E se por acaso o desconhecido tivesse uma voz e me dirigisse a palavra, ou um som eletrônico-gutural, eu não ia querer ouvi-lo. Me trancaria no banheiro? Sempre tive medo de estranhos, com suas perguntas, suas verdades, suas simpáticas fragilidades. Mas que merda, o que um viajante no tempo estaria fazendo na minha casa afinal? Quer saber como vivo, o que faço ou deixo de fazer, o que escrevo ou deixo de escrever, o que como? Quer trocar civilidades, me impor a intimidade de... um cafezinho? Me incomodar com a sua existência? Ele acha que compreenderia os meus medos? Não preciso pensar para escrever que não, não compreenderia e ainda me faria ver que não passo de uma paranóica cheia de melindres, quando na verdade o que mais quero é um pouco de sossego, dois tranqüilizantes antes de dormir e que o mundo se dane. Passado, presente e futuro. A minha esperança é de que ele, quem sabe, antes que eu finalize estas linhas da esquerda para a direita, da esquerda para a direita, possa perceber que seria ótimo para nós dois se ele desaparecesse pelo espelho de onde veio e me deixasse em paz com o meu mundo. Que afinal não tem nada demais.