15.5.04

Luiz Ruffato

Via internet

Estou te falando, cara, vinte e cinco!, vinte e cinco só através da internet, nos chats e ICQ. E olha que eu não sacaneio não, vou logo avisando: sou baixinho, gordinho, míope... mas muito viril! E sem viagra! Faço de tudo na cama... Bom, aí eu tasco poesia. Vinícius de Moraes é infalível. Mas se precisar, uso golpe baixo. Comprei num sebo as obras completas do J.G. de Araújo Jorge... E, se a fulaninha é dessas mais...intelectualizadas...Byron! Você sabe...aquela conversinha...no fundo no fundo as mulheres só querem ser bem comidas por alguém carinhoso, romântico... Mas que não seja boiola! Porque hoje em dia se o cara é romântico, é veado, e se é macho, insensível...troglodita... Eu junto as duas coisas: sou macho e romântico... Ressuscitei a palavra como instrumento de sedução, entende? A melodia de um verso mordiscada no lóbulo da orelha... Ai! Eu elejo a beleza delas com frases emprestadas dos outros... Claro, elas não precisam saber disso, mas eu acho que, mesmo se soubessem, nem ligariam. As poesias foram escritas não pra ficar sepultadas nas páginas dos livros, mas pra se tornarem parte da nossa memória coletiva... Eu avivo todo o meu conhecimento de moleque míope que ficava em casa lendo, enquanto a molecada ia pro campinho jogar futebol... Tem um tempo em que as mulheres dão muita atenção aos músculos, bíceps, tríceps, essas bobagens... Depois, descobrem que até cachorro sabe trepar. E trepar bem, se levar em conta os filmes que a gente vê por aí... Então, elas começam a procurar algo mais, entende? No chat, eu faço o primeiro contato, me apresento, ali a gente já sabe se somos ou não, digamos assim, almas gêmeas... Aí, se der, trocamos o número do ICQ, o e-mail... Começam as negaças, os falsos mal-entendidos, os ditos com segunda intenção, os nhenhenhéns, os hehehés... É um jogo danado, meu irmão, fascinante, melhor que todos os outros games do mundo, porque o prêmio, se você consegue chegar no final, é uma mulher na sua cama...louca pra fazer tudo que você quiser...tudo! E eu digo: não posso reclamar de nada...Já comi uma menina de dezesseis anos, cabaço, acredita?, e uma bem-casada, cinqüenta e três anos, enxutíssima, uma bunda e uns peitos de fazer inveja a muita adolescente aí; já comi uma médica e a secretária dela; já comi preta, branca, japonesa, gaúcha, nordestina e até uma judia; já broxei -- com uma paulistana bonita, gostosa, mas, porra, ela fedia a cerveja, tentei uma, duas, três vezes, estava com a cabeça em outro lugar (a cabeça do pinto, é claro), falei pra ela, caralho, isso nunca me aconteceu antes!; já consegui dar cinco numa noite (com uma japonesa, que parecia ser a luxúria em pessoa!); já tive de trocar o número do telefone (por causa de uma tal de Letícia, que me ligava toda hora e enviava uns cem e-mails por dia); já tive que negar casamento a três; já banquei o psicólogo para convencer uma a não se separar do marido; já peguei doença... Cada história, cara, que se um dia eu sentar pra te contar você escreve um livro inteiro só sobre isso... Vinte e cinco, cara, vinte e cinco! Já tive de abandonar o barco três vezes, porque não correspondiam à descrição, e uma vez me sacanearam, um cara se fez passar por mulher e no dia e hora marcados três brutamontes me cataram, encheram de porrada, quebraram meus óculos... Fiquei de licença médica por três dias (aleguei que tinha sido atropelado, não anotaram a chapa), uma merda... Mas o que fazer?, eu adoro buceta... Bom, cara, vou andando, está na hora de me conectar, você acerta aí? então, um abração, companheiro, me liga, heim, dá licença, por favor, dá licença, com licença


Luiz Ruffato, em eles eram muitos cavalos, 2001.