24.5.04

Uma família feliz

Referência ao grotesco (desenquadrado-da-realidade-como-que-a-piscar-o-olho-ao-ridículo-ou-ainda-um-hino-aos-tocadores-de-trombone-profissionais)

Célia tem mãe mas não tem pai. O pai de Célia não existe, mas mora a 12 quilómetros. A mãe de Célia não tem marido mas mora com um homem a quem Célia chama pai. O pai que existe não gosta de Célia. Célia não tem irmão, mas o pai de Célia tem um filho a quem Célia chama pelo primeiro nome. A mãe de Célia não tem filho mas tem filho. O pai que não existe não conhece o pai que existe, por respeito à lei da anti-matéria. A esposa do pai que não existe não é casada e não tem filhos. Não conhece Célia. Mas Célia conhece a esposa que não existe do pai que não existe. Célia chora apenas em frente do irmão que não é irmão. A mãe de Célia chora em segredo, canalizando telepaticamente as suas lamúrias ao marido que não o é e que não existe como pai da sua filha. O marido que tem é intermitente e olha Célia apenas do pescoço para baixo. A mãe de Célia sabe coisas mas não conta.

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Choque de culturas

Chill Out pré-dormência de fim de semana chuvoso

Alguma vez vos contei a história do homem apaixonado pelo mundo? Um homem que passava a vida em êxtase a contemplar as maravilhas da natureza, um homem que vivia num estado idílico embriagado por excesso de poesia, um homem que via arte nos mais subtis detalhes da banal rotina do dia-a-dia. Um homem rendido às obras literárias e à pintura distorcionista franco-espanhola do início do século XX.

Um dia foi atropelado por uma carrinha de distribuição da DHL, conduzida por um jovem de t-shirt dos Sepultura que rebentava as colunas com "Bulls on Parade" dos Rage Against The Machine, enquanto procurava um isqueiro no porta-luvas. Uma cópia ensanguentada de "Noites Brancas" de Dostoievski foi encontrada na carrinha, com um separador na página 36.


Castor de Mármore