5.5.04



rua gustavo sampaio: as duas rodas do táxi se aproximam. percebo sua forma, cor e velocidade na noite melancólica. minhas botas travam no asfalto coberto de areia. do outro lado do hotel, o táxi contorna o forte do Leme. ondas batendo no costão: são para mim, não são eu. não me vejo mais na praça andando de patins. hoje o mostrador embaçado dos relógios sinaliza a gringos, putas e pivetes a temperatura da avenida Atlântica. o carro escorre por Copacabana e eu desvio a cabeça das descargas de gás carbônico. a família inerte no papel de parede. passo pela esquina da rua onde costumava fumar trepada nos capôs. meus colegas da escola não estão mais lá. dentro do táxi um cheiro de lavanda insuportável. volto minha atenção para o livro que estou lendo para distrair uma vontade passageira de fazer cocô. dados da ONU: o patrimônio de somente 300 bilionários excede a renda de metade da população do planeta. tráfico internacional de lixo: a Ásia é o maior depósito de lixo tóxico do Ocidente. faço umas anotações à margem para a reunião de pauta: + economia do crime, comércio global de crianças, mulheres, órgãos etc. massa crítica de gente descartável. uma van ultrapassa o táxi pela direita e quase entra na traseira de um ônibus. ouço freios e palavrões de todos os lados. meu corpo se projeta para a frente e por pouco não vai parar no painel, sufocando as carinhas dos bebês do motorista. me recomponho no cenário e faço uma ligação pelo celular. enquanto espero que atendam procuro na porta do Roxy pelos mendigos deficientes que costumavam ficar por ali desenhando com os pés. ninguém atende. e os mendigos já se foram. preciso parar com esta mania de voltar ao passado pelas esquinas. o motorista pára o táxi na rua Miguel Lemos e espera, folheando umas fotos de Juliana Paes nua que pegou na internet. eu não desço. dou uma desculpa qualquer e seguimos para Botafogo, pela praia. ele não se queixa, diz que o dia até que está calmo, pois não pegou nenhum tiroteio. eu relaxo e acendo um cigarro. posso fumar?