5.5.04

A produção de um livro é assim:

Primeiro o livro chega ao editorial. É traduzido (a maioria não é de autor nacional), depois copidescado, depois segue para a produção e passa por pelo menos duas revisões tipográficas, segue para a gráfica, dali para o depósito, daí para a livraria.

Se o tradutor é ruim, a editora contrata um bom copidesque para consertar a lambança. Muitas vezes o copi não consegue, porque é lambança demais e ele não é Cristo, e o livro sai uma merda.

Se o tradutor é bom, a editora contrata um copi ruim, que acha que é bom, faz uma lambança e o livro sai uma merda.

Na produção, muitos revisores (não todos, pelamordedeus e graçasadeus) não gostam de livro. Fazem uma revisão do tipo gráfico e o resto que se foda. Se o revisor da primeira prova é bom, o da segunda não precisa ser, o da segunda não pega as lambanças que restam e o livro sai uma merda. Se o revisor da primeira é ruim, o da segunda tem que ser bom, o da segunda não consegue pegar todas as lambanças porque o prazo se estreita à medida que o livro caminha para a gráfica, e o livro sai uma merda. O da terceira prova, se houver, em geral só passeia.

O conflito de classes numa editora é agudíssimo. Marx teria poupado um tempo enorme se, em vez de passar anos estudando a história do capital e do trabalho, ficasse apenas um mês dentro de uma editora. Os revisores odeiam os copis, os copis odeiam os tradutores e os tradutores odeiam os copis e os revisores. A produção odeia o editorial e o editorial odeia a produção.

O dono finge que tudo são flores, chora miséria para justificar a merda que paga, concorda com todo mundo e só faz o que lhe dá na veneta.

É assim que se produz um livro.


Mundo Podre