26.5.04



Perdas&Ganhos

A última janela é alta e sem parapeitos,
nessa hora o medo não tem mais tempo,
mas talvez as pernas traiam no subir dos ventos.

A vida esquece os músculos lá pelos meios,
a lembrança dos laços é a única força dos membros.

A mão vai deixar seus últimos apetrechos:
uma agulha, um terço ou a bengala do companheiro.

Convém que as vestes acompanhem o corpo.
A alma pode esfriar com a sombra,
saltando na tempestade prevista por aquele tolo homem do tempo.

.........

Esboço

Eu tinha te preparado uma casinha besta:
o amor espiando na fresta da janela
os endereços da próxima cena.
fechadura sem saída
com bilhete pingando as letras:
"não sai da poeteira".
duas velas alternando sol e lua
escorrendo os segundos da impaciência.
um sacrário na despensa
escondendo a simpatia do nome preso.
na soleira de porta
tapete bordado
em terceto desesperado:

o ciúme
costura
minha pele sobre a mesa

.........

Vizinha de infância

Dona Celeste
a vida no varal expunha.
Secava carne, roupas
e cascas de laranja.

Cantava de pregadores na boca,
um amor de apertos.
E nas suas estirações,
fazia duetos com Altemar Dutra.

O amarrado de ervas,
nos cantos das cordas,
protegia a penduração.
Tinha peças que não torcia
por respeito às dores alheias.

Seis horas badalava o rádio.
Dona Celeste de terço na mão,
afastava a voz do peito.
Como se pecado houvesse no varal.

A torneira fechava o dia,
no seu tanque encostava minhas cismas:
Por quem Dona Celeste chora quando canta?
Por que esquenta carne se depois a serve fria?


Kátia Marchese, enfim de volta, à beira de sua Janelaria.