7.5.04

o leitor em prosa caótica



Bauer e a máquina

Herr Bauer não sabe o porquê dessa máquina, ela é um enigma que agora ele não pode mais decifrar, ele já não entende nem mesmo como ela funciona. Na verdade não se lembra de tê-la visto funcionando, mas sabe que ela alguma vez funcionou. Herr Bauer não se lembra de uma razão para ela ser. No começo havia uma razão, mas Herr Bauer ficou tão entusiasmado mexendo com algumas pecinhas e com umas várias idéias, que mais e mais idéias foram surgindo sem parar e assim naquele turbilhão de criações loucas essa razão de ser de toda aquela tempestade e de sua máquina se perdeu na sua memória. Morreu! Morreu em sua mente cedendo lugar a alguma coisa quotidiana qualquer, ou quem sabe a uma idéia filha dela própria, mas isso não serviu para salvá-la se foi assim que aconteceu. Também não serviu para salvá-la a documentação do projeto, que é um maço de folhas em branco numa pasta velha - que ele encontrou por um acaso procurando uma canetinha de escrever em cd no quartinho de bagunça - mais uma folha no topo onde se lê "Stroplusceratróica". E não poderia ser diferente a documentação desse projeto fantástico, a "Stroplusceratróica" não foi planejada, não foi sequer imaginada. A "Stroplusceratróica" é uma manifestação espontânea do poderoso inconsciente de Herr Bauer concretizada. Todas as idéias que lhe vinham à cabeça eram logo transformadas em ações! É uma máquina grande, complicada e pesada, que o Herr Bauer adora e da qual se orgulha, porque sabe que é fantástica e que ninguém jamais criou ou criará coisa igual. É quase uma obra de arte. Mas ele não se lembra pra que serve.

Billy, por e-mail


Casamento

Foi quando fiquei sabendo que Alice havia se casado com um rapaz de carreira promissora no ramo da venda de seguros de vida.Tudo bem, até os amigos um dia se casam. Mas o que mais chamou a minha atenção nesse fato que ocorrera com minha antiga amiga é que ele remonta ao meu passado; faz com que memórias dura e penosamente trancafiadas no mais oculto e obscuro nicho do meu subconsciente - muitas destruídas pelo amargor da precoce vida adulta - voltem à tona, trazendo-me de volta a figura de um colegial suburbano, ébrio e inconseqüente - que teima em continuar vivo dentro de mim.

A notícia veio da boca de um amigo que se encontrava no mesmo bar que eu. Era um dia de sábado, cuja tarde suscitava a uma reflexiva e nostálgica caminhada pelo centro da cidade. De dentro do bar eu podia sentir o vento soprando e fazendo balançar as enormes folhas das palmeiras que se estendiam pela alameda, irritando os olhos dos transeuntes sempre apressados, levando embora as folhas secas no chão bem como os anos de minha vida, como se esses fossem grãos de areia que foram se acumulando com o passar do tempo em minha face; deixando-me opaco, sem vida.

Aquele deslocamento de ar fez o tempo regredir: agora eu era um simples estudante, de tênis All Star, calça jeans e camiseta dos Ramones, que fazia do porre aos sábados sua maior preocupação na vida. Meu amigo também rejuvenescera; como tudo que estava ao meu redor. Eu podia ver novamente as garotas que me deixavam num profundo estado de torpor quando passavam e espalhavam pelo ar o cheiro doce de uma água-de-colônia qualquer. Na rua os carros ainda passavam soberbos, brilhantes, exibindo rostos jovens à procura de companhia para a noite.

Eu observava a tudo calado. Me limitava apenas a dar um leve e cético sorriso. Era impossível acreditar que os deuses haviam me dado outra chance." Malditos! Sentados numa mesa de bar e decidindo o que fazer com a vida de nós, pobres mortais, que merecem a piedade do Onipotente, obrigado." Alice entrou no bar e nos avistou. Deu um beijo breve no meu rosto e no de meu amigo e entrou na conversa. Pedimos os drinques. Nossa conversa tola, sobre coisas e pessoas tolas, se estendeu pela noite e esvaziou nossos copos e encheu o cinzeiro. Em meio a eloqüência do momento lhe perguntei sobre seu marido. Ela apenas se levantou e me deu um beijo.

E então ele veio à galope.Veio como uma bala de fuzil a atingir uma vidraça, espalhando os estilhaços pelo chão.O tempo, com um forte sopro, levou embora não só minha juventude como também mostrou o que ele havia roubado de mim; o que eu pensava que havia perdido. Arrependido do furto que fizera, me devolveu tudo como era antes - gente enlouquecida, conta de gás e previdência social.

Velho de gravata vermelha levanta-se, faz um comprimento cordial aos companheiros de desespero e parte para a rua pensando se a noiva iria gostar de uma cafeteira de segunda mão.

John Sobrante, por e-mail