19.5.04

Esquecimento

Um homem chamado Hua-tzu passou a sofrer da memória ao atingir a meia-idade. Ele esquecia durante a noite o que tinha feito durante o dia, e esquecia de manhã o que havia feito à noite. Na estrada esquecia como andar, em casa como sentar. Num determinado momento ele ficava inconsciente do que tinha feito no momento anterior, e um pouco depois ele não sabia o que iria fazer no presente.

Toda a sua família estava perturbada com o seu estado. Eles chamaram um adivinho mas não tiveram qualquer prognóstico. Convocaram um xamã para rezar por ele, mas isso não fez com que o processo de esquecimento parasse. Chamaram um médico para tratá-lo, mas ele não o curou.

Havia um confucionista que reconheceu que poderia curar o homem esquecido, e a sua mulher e filhos lhe ofereceram a metade das suas propriedades pelo remédio. O confucionista disse: "Este caso não pode ser por esconjuros, não pode ser aliviado pela prece, não pode ser tratado pela medicina. Eu tentarei transformar a sua mente e mudar o seu pensamento e espero que ele fique melhor."

Então o adepto de Confúcio o testou expondo-o aos elementos, e o homem pediu roupas para se abrigar. Quando ele o fez passar fome, o homem pediu comida. Quando o fechou num local escuro, o homem pediu luz. O confucionista alegremente anunciou aos seus filhos: "Esta doença pode ser curada. O meu remédio, entretanto, é secreto e não pode ser revelado aos outros. Por favor saiam todos e deixem-me só com ele durante sete dias." A família fez o que ele disse e com isso ninguém pôde saber que medidas o confucionista havia tomado, e um dia a doença que havia acometido o homem foi embora.

Quando o homem acordou, ele expulsou a sua mulher de casa, puniu os filhos e foi atrás do confucionista com uma machadinha. As pessoas que estavam no local seguraram-no e perguntaram qual o motivo de tanta confusão. Ele disse: "No meu passado, quando eu estava completamente esquecido de tudo, eu estava claro e livre, inconsciente da existência ou da não-existência do céu e da terra. Agora que estou subitamente consciente, todas essas décadas de ganhos e perdas, dores e alegrias, quereres e não-quereres, subitamente me ocorrem numa grande confusão. Eu tenho agora medo de que o futuro possa me trazer ganhos e perdas, que perturbarão a minha mente completamente. Será que eu terei um momento de esquecimento novamente?"


-- tradição oral retirada dos Lieh-tzu, um clássico do taoísmo.