13.5.04

Espanha em meu coração

Parto, todos os dias, em busca daqueles que compartilharam comigo parcelas de suas vidas, afastando-se logo depois, silenciosos, a maioria deles para não me reencontrar jamais.

Meus olhos de criança seguem os gestos de meu avô, um operário da antiga Vigorelli, consertando nosso fogão na primeira casa de que me recordo. Logo depois, enquanto minha mãe lava o chão da cozinha, ele me ensina a contar, acompanhando o vai-e-vem da cadeira de balanço. O sol do princípio da tarde rompe o enorme vitrô e vou adormecendo, ouvindo os números que o velho espanhol canta, balançando a cadeira, ritmando, sem querer, os movimentos do rodo que minha mãe empunha, puxando para o quintal a água ensaboada. A luz do sol reverbera pela cozinha azulejada de branco, a água que o rodo leva também brilha, e meu avô recomeça a contar...

Ele morava em uma casa simples, na Vila São João Batista, a caminho da Colônia, em minha cidade natal, Jundiaí. Sala, dois quartos, cozinha e banheiro, mas tudo tão humildemente limpo, de um assoalho tão brilhante, que eu pisava devagar, sem forçar muito os pés sobre a madeira espelhada.

Os tamancos de minha avó esperavam na soleira da porta dos fundos, e ela os calçava quando ia cuidar da roupa, no quintal. A cozinha recendia a pedaços de toucinho, dependurados sobre o fogão, e o barulho da máquina de costura corta a rua quieta, onde a tarde vazia vinha descansar. Os pés de minha avó ainda movem o pedal de ferro, forçando a máquina a trabalhar.

Aos sábados, por vezes aquele homem tranqüilo nos visitava e, para minha tristeza, após o almoço, meus pais não renunciavam ao hábito de me fazer dormir à tarde. Resignado, eu subia para o quarto e, na penumbra, mantinha o ouvido colado à veneziana, tentando escutar não as conversas, mas somente as doces inflexões da voz de meu avô.

Uma lembrança triste me diz que aproveitei muito pouco do seu rosto de bondade, no qual um derrame, anos depois, plantou um enigmático sorriso. Mas reencontro, ao escrever, a textura da pele mal escanhoada e o seu cheiro, sentido em centenas de repetidos abraços, mescla de fumo e algum envelhecido conhaque, enquanto ouço, meio adormecido, o seu sotaque andaluz, a sua voz tisnada pelo sol da Espanha, a me cantar números infinitos...


Rodrigo Gurgel