25.5.04

Dr. Funk


Sim, eu vou a bailes funk sim. Por que não? Primeiro comecei a ir pra ver qual é. Hoje vou porque não passo sem, virou vício. Cansei-me das festinhas nas casas de amigos, de jantares de casais em restaurantes finos, cansei-me principalmente das trocas de casais. Das surubas de improviso com mulheres perfumadas e bombadas em academia. Enfim, cansei-me do clássico. Por isso que agora tomo uma ducha rápida e deixo de lado a Jacuzzi porque hoje não é dia de relaxar. Preciso ficar ligado para a noite. Uma noite sem televisão ou filmes no DVD, sem delivery ou livros de auto-ajuda, sem internet ou papos ao telefone. Alguns poucos amigos ainda me ligam para saber se eu parei com a mania de freqüentar bailes funk na periferia. A maioria deles, porém, desistiu de se preocupar comigo quando percebeu que eu não abriria mão de meus pequenos prazeres exóticos. Ainda bem. Na época em que a liga da moral e a mídia começaram a atacar o funk e funkeiros, o meu telefone não parava de tocar. "O que você tanto faz nesses bailes funk? Ficou maluco? Você não tem mais idade pra isso. Virou pedófilo? Não sabe que é perigoso? Vai cruzar a cidade num Audi até a zona oeste? E vai sozinho? Desarmado? Não tem medo de ser morto?" E por aí vai. Nem me dou mais ao trabalho de responder. Na frente do espelho encolho a barriga, mínima, e puxo o zíper dos jeans para cima com o cuidado de não esfolar a carne, pois não uso cuecas. Tomo uma dose de Jack Daniel's puro, cowboy, enquanto pesquiso no closet um blazer que valorize meu tom de pele. Ando tão pálido. Tenho negligenciado minhas sessões de bronzeamento artificial, ir à praia nem pensar. Estou tão branco que seria capaz de ser facilmente reconhecido no escuro, o que não é nada bom. Hum...minha pele está um pouco seca mas no todo não está nada mal. As adolescentes com quem converso nos bailes dizem que lembro o Brad Pitt "mais coroa". Um exagero. Mas elas são adoráveis. Umas coisinhas. E fazem de tudo para chamar minha atenção assim que desponto na pista. Não se cansam de me agradar, o que deixa os marmanjos do lugar muito putos. Só que nenhum deles se mete comigo porque para freqüentar a periferia um cara como eu tem de saber molhar a mão das pessoas certas se quiser sair vivo dos lugares. Mas como eu ia dizendo, as meninas não se cansam de me agradar, devem achar que sou rico, que danço bem, que não me importo de suar feito um porco no meio daquela gente toda com seus odores desprezíveis, que tenho o corpo malhado e bem esculpido, diferente de seus amiguinhos subnutridos, que sou um cara bacana e descolado que não se importa de dividir com elas a mesma lata de cerveja barata apesar de ser um homem de fina educação, que faço gostoso mesmo para um gringo, e que no final da noite posso escolher uma delas para ficar, que já devo ter comido todas, que me visto bem "só com roupa de grife" e que não ligo se sujá-la com molho de X-tudo, que gosto de misturar minha língua na delas enquanto mascam chicletes sebentos, que adoro me esfregar naqueles tops vulgares, que estou sempre duro sem viagras porque sou forte o suficiente para derrubá-las na cama e mantê-las lá, presas do meu fascínio, amarradas o tempo que for necessário para eu fazer o meu trabalho, que não vai adiantar nada se elas gritarem porque o meu papo não é chato apesar de tudo e convence pois sou um cara antenado e devo trabalhar na Globo onde elas poderão descolar uma ponta na novela das oito, que meu sorriso afinal é irresistível e minhas mãos macias, mãos de médico, que meus dedos são tão firmes e delicados que não vacilam na hora da incisão, que devo ser médico sim porque elas não sentem dor alguma quando eu lhes retiro os órgãos e os coloco ainda sangrando nuns recipientes gozados que vão pro fundo da geladeira, que eu devo ser então um médico muito importante de um hospital muito chique onde elas poderão fazer uma lipo de graça um dia, que devo ter amigos também tão legais e importantes como eu que se preocupam comigo e com minha idéia maluca de viver enfiado em bailes funk.