21.5.04

consulta ao leitor


Estava com uma dor assim no peito, meio funda, meio rasa. Lá pelo miolo das vértebras, sabe como é? Daquelas dores chatas o suficiente para não te deixar dormir, você fica sem posição na cama, quanto mais respira mais dói, você imagina o pior, começa a suar de nervoso, daí a dor piora e, pronto, não há depois quem tire da tua cabeça que você vai infartar dali a duas horas como o teu pai e o teu avô infartaram. É verdade que a minha dor no peito vinha do estômago, mas na hora nenhuma lógica diferente me ocorreu. Minhas cartelas de diazepam e frontal, arreganhadas sobre o criado-mudo, me exibiam seus buracos vazios. Hora de visitar o passador de receita aqui do bairro, que, na falta de outro, atende pelo nome de Dr. José das Couves, especialista numa clínica que desconheço: a cardiopsiquiatria. Ora, eu nunca ouvi falar nessa daí, mas que a recepção estava cheia, isso estava. Gente safenada e artrítica, gente safenada e esquisita, me olhando de um jeito esquisito. Convencida de minha coronariopatia, sentei-me ao lado de meus colegas e, para me distrair, procurei por diplomas nas paredes. Eu queria saber que raio de especialidade é esta de que nunca ouvi falar ou sequer li nas publicações de medicina - minha literatura favorita - que tenho lá em casa. Nada. Nas paredes só vi quadrinhos com ideogramas chineses, para analfabetos em chinês, e duas plaquinhas, uma ao lado da outra. A primeira dizia: "Se te escutarem, fala. Se não te ouvem, cala." A outra, mais enigmática: "Na vida às vezes é preciso se recortar para se recompor." Me remexi na poltrona, desconfiada, guardando as mãos nos bolsos do casaco. Bom, resumindo, uma hora e quatro pacientes depois, o cardiopsiquiatra me atende, tira a pressão, me apalpa, conta umas piadas e passa a receita dizendo que eu tenho hérnia de hiato, por isso as dores no peito. Não há necessidade de um eletrocardiograma, bobagem. Na farmácia que ele indica, devo comprar os remédios para o estômago com 60% de desconto, cortesia do Dr. Couves, que é candidato a vereador pelo partido da oposição. Faço cara de coitadinha-é-perturbada-das-idéias e peço uma receita para os tranquilizantes. Ele hesita mas faz. Ano eleitoral. Antes de me despachar, me distribui umas amostras grátis de digestivos e me dá de presente um livro de um mestre taoísta sobre métodos de vida natural, harmonia mente-corpo, o yin que atrai o yang e o yang que atrai o yin. Afundo o iogue na bolsa com uns restos de barras de chocolate e puxo lá de dentro o cheque. À noitinha, enquanto degusto minha sopinha de legumes com diazepam ralado na frente da tevê, aproveito para folhear o livro do Mestre Oki e leio no prefácio que o sábio oriental morreu aos 64 anos! Só o que me faltava, minha avó, que era uma bronca de quatro costados, viveu muito mais do que isso. Minha mãe, roída por um câncer, viveu muito mais do que isso. E as duas nem precisaram escrever um livro para contar suas histórias. Ou será que escrever é que faz mal à saúde?