26.4.04

Edyr Augusto



Oi


Ninguém tem nada a ver com isso. Minha vida. Eu. Quem quiser que fale. Que ria. Que vaie. Fofocas. Vivo do meu jeito. Comigo. Eles falavam que precisa ter mulher. Filhos. Família. Não deu. Houve uma. Chegava em casa cansado. Dizia oi. Não respondiam. Ficava comigo mesmo. Um dia saí e não voltei. Fiquei na rua. Achei um canto. No meio do mundo. Uma grande avenida. Gente passando. Barulho. A faina. Carros. Ninguém se vê, mesmo. O cara deixou a cadeira de engraxate dando sopa. É minha. Passei a noite. No dia seguinte, chegou todo mordido. Mostrei a faca. Nem precisei falar alto. Agora é minha. Ele foi. Chegou um gringo. Mostrou o sapato. Dei um lustro. Pagou uma banda. Um trombadinha foi comprar pra nós dois. Café da manhã. Veio outro. Almoço. Uma lata de tinta jogada fora. Põe água. Tomo banho. Os barões jogam fora. Caixas, papéis, papelão. Banho tomado, assisto o final da tarde. A pressa dos que voltam para casa. Vão dizer oi. Tá. Arrumo a cama com papelão. Faço uma parede. Durmo. É silenciosa a noite ali no centro. Lá vem o dia. E os caras, apressados. Umas donas gostosas. Quando dá vontade, as putinhas fazem por 5 reais. É coisa rápida. Sempre foi assim. 1, 2, 3. Que bom. Assisto o mundo à minha frente. Não dou opinião. Apenas coleciono imagens. Agora há uma banca de xerox na esquina. Um guardador de carros. Um carrinho de lanches. Família. De outro jeito. Família do mundo. Falamos. Contamos piadas. Trocamos favores. Não perguntamos nomes. É só assunto do dia. Do nosso dia. Às seis eles vão dizer oi. Eu fico. Vou dizer oi porra nenhuma. Os moleques pediram pra adiantar um pouco da cola. Eu devia umas. Parece que forçaram uma barra lá na Praça. De manhãzinha os meganhas vieram. Alguém dedurou. Seguraram forte, aqui no braço e no resto de cabelo no cocuruto. E ainda aquela viada escrota, velha, que mora no casarão, falando aquelas porras de sempre, me chamando de vagabundo, mendigo, drogado, traficante. Vá se foder. Me jogaram no pátio na Seccional do Comércio. No chão, levantei a vista aos poucos. Foda. Turma da pesada. Endireitei o corpo. Encarei. Alguns já me conheciam. De vista. Foda. Fiquei ali. Mofei. Escrotice. Um dia, trocou o delegado. O cara decidiu fazer limpeza. Me jogou fora. Sem culpa formalizada. Que dia era? Sei lá. O mundo aqui fora, de novo. Fui lá na casa. Entrei e disse oi. Os moleques cresceram. A mãe foi levar a roupa lavada para a patroa. Então tá. Tchau. Voltei. A cadeira tinha sumido. Um carro de cachorro-quente no lugar. Do lado, um espaço. Fui andar. Achei uma cadeira. O velhinho arrumou a trouxa e foi dizer oi. Botei lá no espaço. Dormi sentado. O cachorro-quente veio encrespar. A galera falou por mim. Tá. Dando um lustre nos sapatos. Um cuspe e brilha. Vou atrás de papelão. Meu quarto, ali, no meio do mundo. No meio do lixo, um cachorrinho, filhote, perdido. Vem comigo. Improviso uma mamadeira na garrafa descartável de Coca-Cola. Ele fica. Hoje é amigo da esquina. Fica por ali e todo mundo gosta. Não tem nome. Ninguém tem. E então ela chegou. Dessa gente, tem muito. Se tem fome, joga pedra, faz um bode, come manga. Se tem sono, deita no chão e dorme. Ficou ali, chupando uma manga batida, lentamente. Descalça. Pés imundos. Toda imunda. Deitou nos degraus de uma portaria de prédio fechada e dormiu. Deixa pra lá. No dia seguinte, sumiu. Voltou. Ficou ali, calada, olhando para nada. Me atraiu. Joguei um pedaço de pão. Ficou olhando um tempão. Ah, foda-se. Quando olhei de novo, o pedaço não estava. Bom. Fui preparar meu quarto. Ela está sentada na cadeira. No meu trono. Fico brincando em volta, assobiando qualquer coisa. Ela, nada. Peguei a lata. Tinha um resto de água. Lavei os pés. Ela continua olhando o nada. Mas havia um fio de sorriso. Me animo. Assobio à sua volta. Faço uma dança. Ela levanta e sai. Vai para o seu degrau. Deita e fecha os olhos. Lá, o fio de sorriso. Que coisa. No dia seguinte foi aquela farra. A galera zoando. Namorada, namorada. Fechei a cara. Namorada o caralho. Até peguei a faca. No fim do dia ela chegou estranha. Tremia, batia na cabeça. Não sabia se chegava junto. A gente nunca sabe. Se acocorou num canto e ficou. Sei lá. Deitei. Me acordou. O cachorro nos braços. Passando a mão na minha cabeça. Me assustei. Quase bati. Agora, eu tinha certeza, ela olhava pra mim. Assobiou minha música. Chamei pra deitar. Não era pra tirar confiança. Só pra deitar. Ela não veio. Levantei. Ficamos ali, a noite inteira. Calados. De vez em quando eu assobiava, ela respondia. Dormi. Ela foi. Mas agora volta mais cedo. Já estou pronto. Dou um lustre na bota. Não falei da minha bota? De caubói. Com desenhos. Meu tesouro. Sento no trono e espero. Quando ela chega, assume. Deixa falarem. O cachorro gosta. Assobiamos. Agora já ri. Às vezes dorme um pouquinho. Tem um sono esquisito. Curto. Diz coisas. Pede desculpas. Que não, não e não. Sei lá. Quando acorda, fecha a matraca. Passei a mão no rosto. Olhou, riu e chorou. Só. Somos eu, o cachorro e ela. No meio do mundo. Pra mim está bom. E nem dizemos oi.