9.4.04

Não. Não era a polícia. A campainha tocou e eu pulei da cama. Era um sábado de sol nas Laranjeiras e eu estava de ressaca. Eles não botaram o pé na porta que eu abri. Manda aí os dólares e jóias. O 38 na minha cabeça e eu posta na sala. Na vitrola um arranhado Clara Nunes que não era meu começou a tocar para abafar os ruídos a vizinhos que ainda dormiam. Já faz tempo que morei no pé do Dona Marta. Já faz tempo que tarde da noite eu misturava o preto com o branco e subia as lembranças da arma na minha cabeça enquanto eles vasculhavam o apartamento atrás dos dólares e do ouro que eu não tinha. Foram 50 minutos de buscas inúteis para eles descobrirem que eu não era o que procuravam. Só alguns discos e livros. LPs de Maysa e Madonna, livros de alguns amigos, livros clássicos, livros de quem não pensa em fazer livros. Livros miúdos, de capa grossa. Tratados de agronomia, teses sobre o ciúme, poesia, cem mil réis de filosofia, roteiros de Fellini, enciclopédias de medicina, cópias de jornais, revistas velhas, partituras de piano, segundos cadernos, o que isso poderia lhes interessar, embromações de papel, manuais de redação, gramáticas superadas. Com a boca amordaçada eu não pensava em livros. Imaginava a que horas eles sairiam dali para eu poder almoçar e contar aos meus amigos que eu havia sido assaltada e meus livros permaneceram intocados. Meus amigos ririam antes de pedir o cafezinho. Hoje abandonei a cidade e meus livros continuam intocados. E à tardinha, quando volto de um passeio, beijo meus cachorros e ajeito as coisas para o verão.