11.4.04

lembrança de um brasil


Abakuéra era um cabra mangatu. Tinha pernas de gente mas tão curtinhas de tanto gastá-las andando pelo kaá ou atravessando os 'ygûasu atrás das mbôia que viviam debaixo de toda itamirim. Diferente de todos os curumins, Abakuéra não tinha Sy, ou se teve não conheceu. Porém, como todos eles, nasceu também num kurityba e já antes que lhe nascessem os dentes devorava os pirá que abás traziam das pescarias. Da pouca memória que me restou da inteligência, lembro que Abakuéra não tinha cara de abá, nem de kunhã. Era banguela, com fachada de minhoca e cabelo arrepiado. Mas seu coração era uma katusaba só. Todos gostavam dele, menos as kunhãs recém-casadas, que achavam que ele tinha cara de abortivo e por isso evitavam olhar aqueles seus olhos de água parada. Não que ele se ressentisse disso, mas que ficava triste, ah, isso ele ficava. Abakuéra se recolhia no fundo da mata com sua tristeza, e ficava lá, alisando o aipim até ficar redondo, catando a cabeça, desencaroçando casca de concha com a ponta da língua e botando pra secar. Algumas kunhãs novinhas no assanho gostavam de mostrar suas akoabas pra ele. Abakuéra ficava com o akuãia muito atã e à noite sonhava com babakas vermelhinhas. Eu tinha pena dele. Que vida de asyara. Ser tratado assim, como se fosse uma angaba, um espírito maligno. Mas isso tudo foi muito antigamente, só estou contando pra vocês porque hoje, enquanto tirava minha cera do ouvido, me lembrei do mestre Anchieta e de suas lições na arte da gramática. Foi com o padre que aprendi os rudimentos do tupi clássico ao qual me mantenho fiel até hoje, apesar das críticas de ilustres tupinólogos contemporâneos que julgam que eu e minhas teses somos pura abyaka. Para mim não passam de traidores, uns abangaíbas, de raciocínio esponjoso e abebó. Não aprecio quem costuma falar de boca cheia, tratando a língua como farinha. O final completo da historinha de Abakuéra eu não me lembro. Sei que aprendi com ele que os índios contavam os anos tomando por base o surgimento do caju e Abakuéra me contava isso rindo, a banguela de fora, os dois bêbados de tanto akaîui. Não trabalho mais na Funai mas guardo ainda um bracelete de penas presente do meu amigo. Que a água azul embale seus sonhos. Vida longa para todos. Anhé será.