21.4.04



Além de poeta prolífico, Byron ficou também conhecido pela profusão admirável de cartas que escreveu. Em 1819, morando em Veneza, escreve uma deliciosa carta a seu editor e amigo John Murray para contar-lhe a história de Margarita Cogni, uma de suas quase duzentas amantes no período de dois anos. Extravagante, Byron apreciava as mulheres de condição humilde, por julgar as damas da sociedade "mais feias que a própria Virtude". O excerto da longa carta publicado aqui foi realizado a partir da versão na íntegra que saiu na edição brasileira de Beppo: uma história veneziana, com tradução de Paulo Henriques Britto.

"Meu caro

...Você comprou os desenhos que Harlow [o pintor] fez de Margarita e de mim por um preço muito alto, a meu ver, mas como você quer saber a história de Margarita Cogni, vou contá-la, ainda que seja um tanto longa. Seu rosto é do belo molde veneziano dos velhos tempos e suas formas, embora ela talvez seja alta demais, não são menos belas... No verão de 1817, eu e Hobhouse [amigo e confidente de Byron] estávamos passeando a cavalo ao longo do Brenta [rio] uma tarde quando vimos, num grupo de camponeses, as duas moças mais belas dos últimos tempos. Recentemente a região passara por muito sofrimento e eu ajudara algumas pessoas. Um pouquinho de generosidade impressiona muito, quando trocada em moeda veneziana, e a minha fora talvez excessiva sendo eu inglês. Se elas perceberam que olhávamos para elas ou não, isso eu não sei, mas uma delas se dirigiu a mim em veneziano. "Por que o senhor, que ajuda os outros, não pensa em nós também?" Virei-me e respondi-lhe: "Minha cara, você é bela e jovem demais para precisar de minha ajuda." Ela respondeu, "Se o senhor visse minha cabana e minha comida, não falaria assim". Tudo isso foi num tom de brincadeira e não a vi de novo por uns dias. Algumas tardes depois, encontramos essas moças novamente e elas se dirigiram a nós em tom mais sério, garantindo que o que diziam era verdade. Eram primas, Margarita casada, e a outra solteira...combinei de encontrá-las na tarde seguinte. Hobhouse se engraçou com a jovem solteira... e a minha levantou obstáculos ante minhas propostas, dizendo que queria pensar. Disse-lhe eu: "Se você está mesmo passando necessidade, eu a ajudo sem lhe impor quaisquer condições, e você pode ou não fazer amor comigo, como quiser,... mas se não está passando necessidade, então isto aqui é um encontro amoroso e julguei que estivesse ciente deste fato quando combinou encontrar-se comigo." Ela disse que não tinha nada contra fazer amor comigo já que era casada e todas as mulheres casadas faziam isso, porém seu marido (que era padeiro) era uma fera e ia fazer-lhe algum mal. Para encurtar a história, após alguns encontros entramos em acordo e durante dois anos, no decorrer dos quais tive mais mulheres do que sou capaz de relatar, ela foi a única que manteve sobre mim uma ascendência muitas vezes disputada e nunca diminuída. Como ela própria dizia em público, "Não faz mal, ele pode arranjar mais quinhentas, sempre acaba voltando pra mim". As causas deste fato eram, em primeiro lugar, seu físico, bem trigueira, alta, rosto veneziano, olhos negros excepcionais e certas outras qualidades que não é necessário mencionar. Tinha 22 anos e, por nunca ter tido filhos, não havia estragado suas formas, nem mais coisa alguma, o que, acredite, é de grande importância num clima quente onde elas ficam frouxas e flácidas e flopt pouco tempo depois de procriar. Além disso, era uma veneziana autêntica em seu dialeto, em suas idéias, em sua expressão, em tudo, com toda a ingenuidade e o humor pantaleônico típicos de lá. Ademais, não sabia ler nem escrever, portanto não me importunaria com cartas... Sob outros aspectos ela era um tanto feroz e prepotente, costumando entrar quando lhe dava na veneta, sem ligar para hora, lugar, nem pessoas, e se encontrava alguma mulher na sua frente, a derrubava. ... Quando fui passar o inverno em Veneza, ela foi atrás: nunca tive uma relação regular com ela, mas sempre que ela aparecia, eu não deixava que qualquer outra interferisse, e assim, percebendo o meu favoritismo, ela vinha com bastante frequência. Mas seu amor-próprio era excessivo e ela não tolerava outras mulheres... e, como na época eu era um tanto promíscuo, ocorriam muitas confusões e demolições de penteados e lenços e por vezes meus criados, tentando pôr fim a um conflito entre ela e outras senhoras, recebiam mais socos do que agradecimentos por suas iniciativas de paz. ... Por fim ela brigou com o marido e uma noite fugiu para a minha casa. Expliquei-lhe que aquilo, nem pensar, e ela disse que preferia deitar-se no meio da rua a voltar para ele, que ele batia nela (a doce tigresa), gastava o dinheiro dela e abandonava seu forno de modo escandaloso. Como era meia-noite, deixei-a ficar, e no dia seguinte não havia como fazê-la sair. Veio o marido, rugindo e chorando e implorando que ela voltasse, pois sim que ela voltava! Ele então recorreu à polícia, a qual recorreu a mim e eu disse à polícia e ao marido que a levassem, eu não a queria, ela viera e eu não podia jogá-la pela janela, mas que eles poderiam levá-la pela porta se quisessem. Ela foi parar na delegacia, mas foi obrigada a voltar com aquele "becco ettico" (corno tísico), como ela se referia ao pobre coitado, que estava tuberculoso. Alguns dias depois ela fugiu de novo. Depois de pintar e bordar, instalou-se na minha casa, sem meu consentimento, por culpa exclusiva de minha indolência e por eu não conseguir manter a firmeza, pois se eu começava a me irritar, ela sempre acabava fazendo-me rir com alguma palhaçada veneziana, e a ciganinha sabia disso muito bem, tal como conhecia seus outros poderes de persuasão e os exercia com o tato e o êxito que caracterizam todas as coisas fêmeas, elevadas e baixas, são todas iguais neste ponto. ... Ela oscilava de um extremo a outro, ou chorava ou ria, e ficava tão feroz quando irritada que apavorava homens, mulheres e crianças, pois tinha a força de uma amazona e o temperamento de Medéia. Era um magnífico animal, porém impossível de domar. Eu era a única pessoa que ainda conseguia controlá-la até certo ponto...Nesse ínterim, ela batia nas mulheres e interceptava minha correspondência. ... chegou mesmo a estudar o alfabeto com o fim (segundo afirmou) de abrir todas as cartas que me eram enviadas e lê-las. Tenho de fazer justiça a seus talentos domésticos, depois que veio para minha casa como "donna di governo", as despesas caíram para menos da metade e cada um passou a cumprir suas obrigações direito, os aposentos eram mantidos em ordem como tudo o mais e todo mundo, menos ela. Eu tinha motivos para acreditar que ela, lá a seu modo louco, tinha bastante consideração por minha pessoa... porém seu reinado aproximava-se do fim. Tornou-se completamente ingovernável alguns meses depois e uma série de queixas, algumas verdadeiras e muitas falsas, "favorita não tem amigos", levaram-me a decidir afastar-me dela. Disse-lhe com calma que ela teria de voltar para casa (ela havia adquirido uma provisão suficiente para si própria, sua mãe etc., no tempo em que estivera a meu serviço) e ela recusou-se a sair da casa. Fui firme e ela saiu, com ameaças de facas e de vinganças. ... No dia seguinte, durante meu jantar, ela entrou, depois de quebrar uma porta de vidro do salão à guisa de prólogo, e, avançando até a mesa, arrancou-me a faca da mão, cortando-me de leve o polegar. ...Então, chamei meus barqueiros e mandei que aprontassem a gôndola e a levassem de volta para sua casa... Ela parecia calma enquanto descia a escada. Voltei ao jantar. Ouvimos um grande barulho, saí e encontrei-os na escada, carregando-a de volta para cima. Ela havia se jogado no canal. ...Percebi sua intenção de reinstalar-se e mandei chamar um médico. ...Após sua recuperação, mandei que a entregassem em casa discretamente e nunca mais a vi, salvo duas vezes na ópera... Ela fez muitas tentativas de voltar, mas nenhuma violenta. E esta é a história de Margarita Cogni, até onde estou envolvido. Esqueci de dizer que era muito devota e persignava-se quando ouvia o sino indicar a hora da prece, às vezes em momentos nos quais esta cerimônia não parecia muito condizente com o que ela estava fazendo. Tinha respostas rápidas na ponta da língua como, por exemplo, num dia em que ela havia me irritado muito por ter batido em alguém e chamei-a de "vaca", o que em italiano é uma séria afronta. Chamei-a de "vacca", ela virou-se, fez uma mesura e respondeu: "Vacca tua, 'Celenza." Em suma, era como já disse, um magnífico animal, de beleza e energia consideráveis, com muitas qualidades boas e algumas divertidas, porém selvagem como uma bruxa, e feroz como um demônio. Costumava vangloriar-se em público de sua ascendência sobre mim, contrastando-a com a de outras mulheres e atribuindo-a a razões de ordem física e moral que melhor diziam de seu físico que de sua moral. Era bem verdade que todas tentaram livrar-se dela e nenhuma conseguiu, até que foram ajudadas pela sua própria falta de juízo. Sempre que havia uma competição, e às vezes uma era fechada num quarto e outra noutro para impedir uma batalha, a Fornarina [a padeira] geralmente tinha a preferência.

Com muita estima e afeição

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