15.3.04



wormhole


Para a teoria da relatividade, buraco de minhoca é o nome de uma estrutura que liga dois buracos negros, cada qual num universo separado ou em regiões separadas de nosso universo, criando uma ponte entre os dois e, assim, entre duas regiões do espaço-tempo. Pensando bem agora, acho que deve ser por isso que algumas vidas valem mais do que outras. Deve ser por isso também que na África os missionários brancos ofereceram a Bíblia em troca das terras. Que à mesa o garfo e a faca devem ser manuseados juntos. Que o espírito se fez carne para que a carne voltasse a ser espírito. Que o que não se diz acaba de alguma forma sempre vazando do que se diz. Que, como disse Antônio Maria, algumas mulheres usam o coração por fora da blusa. Que o mais belo tom de azul dos afrescos de Michelangelo veio do solo afegão. Que na casa de Himmler as cadeiras eram feitas de ossos de bacia e pernas humanos. Que é pagando que se recebe. Que o essencial na arte é espremer-se. Que a sociedade moderna valoriza mais o burro esforçado do que o talento desperdiçado. Que o estudo da história não passa de imaginação de cenários. Que pobre é gente mas não é igual. Que toda democracia não passa do limite da cozinha. Que a vida pode ser tranqüila mas na maior parte das vezes ela engrossa. Que a onda vai e vem. Que por dentro um não pode ser muito fora do outro. Que a polissemia é glossolalia. Que a neogeopolítica se faz com bombas. Que Jimi Hendrix perdeu na queda-de-braço com Wagner. Que pra entender o Brasil tem que saber digerir vatapá com feijão. Que pra ser brasileiro tem que sonhar com avestruz mas jogar no coelho. Que os homens aprenderam com Virgílio a sacudir o inferno por não poderem mudar o céu. Que o pensamento não corre como uma parelha de mulas. Que eu falo e você escuta. Que o computador é uma prótese mental. Que depois da internet, eu sou tão bonita quanto uma bomba de gasolina. Que minha vida não vale um xenxém, mas, como disse Nero, agora que Sêneca está morto, nós podemos cantar.