20.3.04

Uma pilha de notas fiscais na mão esquerda, o olhar paralisado. O telefone toca, o salgado espera, o ar-condicionado grasna, a música do celular não pára.

Os dedos da mão direita de Adalto contam silenciosos; seqüência secreta de números... O telefone toca novamente.

Adalto aumenta a rádio. Renato Russo invade a sala falando de leão-marinho... O que aconteceu com Renato Russo? O que aconteceu com todo aquele pessoal que ficava encostado no muro da minha casa, conversando, tocando violão...?

O celular de Adalto martela a música de Butch Cassidy & Sundance Kid. Já tem a rádio, perene, pouco transcendental. O mesmo repete a paranóia até ad eternum. Todos os vermes são eliminados quando o ar-condicionado faz decolar o escritório, entronizando o vôo de um 737 da Gol. O rosto de Adalto ilumina um salgado em cima da mesa, é uma fotografia. Tião está aqui em preto e branco, o chefe está sempre com a mesma roupa.

Adalto atende o telefone e fala com alguém sobre umas chaves, faz apontamentos, determina a forma de tratá-las. Tudo é literatura, mas na realidade é preciso esquecê-la. Adalto perde a paciência latente, volta para sua mesa, deixa o celular onde estava, levanta novamente para atendê-lo onde o deixou e volta depois. Fará isso ainda mais duas vezes, Sísifo. Fará isso por toda a eternidade, ao que parece.

Tião Bravo olha impassível. Olha escutando a ligação de Adalto. É o telefone fixo que chamou. Adalto explica muitas coisas que não interessam agora, mas no fim do mês irão interessar, quando explodirem. São granadas programadas; parceladas. Tião Bravo é o visionário da Empresa, mas todos estão sob a égide do mesmo ar-condicionado, o mesmo avião 737, antiga sucata aniquilada pelo primeiro mundo. Aliás, ...

Como o PC é criativo! Ahg... Minha caligrafia acabou, estou com problemas; em qualquer prova de RH estará claro que estou morto também. Assim como Adalto, contador de notas fiscais, assim como Tião, líder da revolução industrial, assim como Renato Russo, que não teve tempo de se transformar em Jerry Adriani.

Lá fora o mundo acabou. Está o imenso escuro, a coisa sem nome que estanca adiante de nós a peste medonha. O escuro profundo abraça a todos nós numa seqüência morta de custos e benefícios, vales quentes, rios de óleo, forças satânicas, medos escondidos, formas clássicas de uso, gestos cansados, frases amorfas, luvas de segurança, monitores coloridos, setores implacáveis, fichários de kafka, rádios FM, férias para estressadinhos, folhados de frango da cantina, armários de ferro, planilhas no Exel, laptops esquecidos na mesa de reunião, músicas de celular, propagandas de shopping, cotações do dólar, horário para almoço, assobios, fotografias, granadas e papéis e papéis que serão definidos para morrer e matar.

Preciso de um lugar com mais luz. Poderia ser mais rápido........ ; Hoje eu gostaria de ser um Quark Top...


Elton Pinheiro, no Engrenagem