28.3.04

Quando foi da meia-noite para o dia,
que eu deixei com cortezia
minha terra, o Ceará
as foias véias já cabia pela estrada,
vim marchando na picada
só na sêcca a matutá:

P'r'o sertão do Ceará
Tomára eu já vortá
Tomara eu já vortá... [bis]

No cemiterio os mortos se alevantaram
uns aos outros perguntaram
que qu'eu havéra de querê?
nas catacumba os defunto té gemia
no céo as coruja ria
Eu mesmo não sei porquê...

P'r'o sertão do Ceará, etc.

As santas, fême, na igreja já chorava
os santos macho só me oiava
com cada ôio assim!
Até os gallo e as gallinha não sabia
de corrê p'ra onde havia
tudo com medo de mim!

P'r'o sertão do Ceará, etc.

Quando eu cheguei dessa viagem cá no Rio
foi qu'antão logo se viu
qu'é qu'eu vinha cá fazê:
eu fui chamado só p'ra sê o presidente
desta terra, desta gente
sê o rei de vosmucêŠ

P'r'o sertão do Ceará, etc.

Logo o povo, muito amavo, foi dizendo
o dote qu'eu ia tendo:
o Pará, França, o Japão,
um iscalé com doze remo e vinte peça
mas abanei co'a cabeça
dizendo "Não quero, não!"

P'r'o sertão do Ceará, etc.

Agora vorto p'r'o meu ceará querido
sinão fico home perdido
é mió eu î p'ra lá!
Quero î m'imbora e hei de î até a nado
sinão fico avaccaiado
como todo mundo está!

P'r'o sertão do Ceará, etc.


Cantava assim meu tataravô um cateretê chamado "O Matuto", lembrando do carnaval de 1918, quando ele circulava pelo Rio em um dos 35 automóveis existentes. Naquele tempo o povo dançava maxixe, enquanto a elite preferia o foxtrote, polcas, valsas e mazurcas. Meu tataravô Emiliano assistiu no cine Pathé à primeira comédia brasileira "Nhô Anastácio chegou de viagem" e à primeira ficção "Os Estranguladores". Ouvi dizer que depois do cinema, pelas madrugadas, ele se mandava para a Sociedade Carnavalesca Estudantes de Heidelberg dançar maxixe com as mucamas. Tempo de mucamas peritas em cafuné. Tempo de exibir unha comprida como prova de ócio aristocrático. Na imprensa, a cronista Eneida chamava o carnaval de "alegria dirigida", mas o povo não queria nem saber. Meu tataravô chegava do trabalho, jantava, beijava mulher e filhos, alisava a fantasia que havia deixado na manha e batia perna para o Ameno Resedá, o rancho carnavalesco. O tempo foi passando e o que se chamava fumo de Angola virou maconha. Tintura tebana, ópio. Hoje, legítima representante mamolenga da sociedade sedentária, presto aqui o meu tributo aos meus ancestrais e a todo povo que tem saudade dos bondes de ceroulas. Fon-Fon.