27.2.04

São os vermes que formam o húmus.
Os coqueiros só atraem relâmpagos.


As janelas do quarto estão fechadas mas eu sei que tem alguém me espionando. De dentro. Remoendo a memória. Um Cristo posando para a posteridade de gesso. Um Bel Air ano 57 sobre a mesa. A TV Emerson. A Frigidaire. Sobre os sofás pés de palito, minhas bonecas desmembradas fazem sombra. Meu pai a cabeça, minha mãe os braços, minha irmã as pernas. Eu junto toda a família e lembro de coisas que não me interessam: há dois dias, vejam só, num jantar informal na casa de L.B., a quem só conheço de mesas de bar, um sujeito com um copo de Cuttysark na mão me confidenciou seus temores. Disse que como ex-oficial da inteligência do exército brasileiro, via com preocupação a nossa "situação" em Foz do Iguaçu. Como assim?, eu perguntei, com a minha melhor expressão de espírito livre. Ele virou os olhos para um bonsai sobre a mesa e ali fixou-os por uns trinta segundos, sem me responder nada. Tive tempo de acender um cigarro, dar dois tragos e reabastecer o meu copo. Vejo com preocupação o interesse norte-americano na região de Foz do Iguaçu, ele repetiu. Essa justificativa de haver terroristas na região. Isso é preocupante. Não nos convém. Afeganistão, Iraque, agora o Haiti. Não sei não. Muito preocupante. Não foi Caetano quem disse naquela música:"o Haiti é aqui"? O Havaí, eu corrigi, começando a me coçar. Eu já conhecia essa história. Eu não queria conversar com um milico, não queria admitir a possibilidade de uma invasão. Me lembrei do pau-de-arara e molhei as calças. Deixei o cara falando sozinho e fui pro banheiro. Os tempos mudam mas minha memória é uma esponja. Não sei quando vou superar. Abro as janelas e o lado de dentro não sai.