4.2.04

Prezado editor


Entendi muito bem a sua posição quando, uns dez anos atrás, o senhor me disse que sua editora não publicava ensaios acadêmicos porque não havia público leitor para isso. Na época eu me dedicava à crítica literária e só sobrevivi porque dava aulas. Tive de me voltar para a ficção e o jornalismo literário se quisesse ganhar alguma projeção nesse meio. E consegui graças a muito esforço. Por isso foi com surpresa que recebi, após os boatos de minha provável indicação para concorrer a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, um convite seu querendo justamente que eu escrevesse um ensaio sobre "as trilhas pantanosas da nossa literatura". E foi com surpresa ainda maior que vi novamente um projeto meu ser rejeitado por sua ilustre casa editorial. Concordo que o tema "a intransitividade da literatura" é bastante espinhoso, abarcando muita filosofia no contrapé. Não é para qualquer um, muito menos leitura de cabeceira. Sei que deseja muito publicar um trabalho meu, que o meu nome enriqueceria o seu catálogo, segundo suas próprias palavras, mas, francamente, a lista que me sugeriu de assuntos "palatáveis" sobre os quais eu deveria discorrer após "abiscoitar a cadeira" é no mínimo constrangedora. Coisas como "Conversas no Chá das 5", "Seja um Acadêmico em 10 Lições", "O Mundo Encantado das Letras", "Por Trás do Fardão", "ABL para Todos" certamente fariam a alegria dos seus leitores, mas o que eu ganharia com isso além de alguns tostões, se tanto? O senhor está querendo me sabotar? Quer que eu caia no ridículo público? Contrate um escritor de aluguel para falar sobre estes seus temas tão "momentosos" e deixe-me em paz. E deixe em paz a minha mulher também, pare de assediá-la para que eu aceite escrever para o senhor. Sei muito bem que não perde a chance de importuná-la sempre que a encontra, que lhe manda flores e bombons e telefona todos os dias, certamente para usá-la de intermediária nessa negociação. Ela anda muito nervosa com esta situação, já quase nem pára em casa. Diz que não consegue resistir à sua pressão e que por isso está estressada, a pobre. Mas saiba que eu resistirei, meu caro. Eu não vou escrever para o senhor. Eu não quero saber da sua editora! Eu não quero saber do senhor! E passe bem!

R. de A.