25.2.04

Aceitar é gostar


Já escrevi um pequeno poema que lerei hoje durante o jantar na casa da minha prima.
Na verdade, dizer que escrevi não é exato. Copiei, isso sim, uns versos do italiano Diogo Balzirossi, em tradução livre do chef Santo Alípio (que não transpôs as rimas mas abrilhantou a essência).
Minha prima nem vai notar a traquinagem. Não é mulher dada a leituras. Nem eu sou homem dado a poesias. Mas, se ela gosta de ouvir, o que me custa copiar, e ler?

Alcachofras (gotas)
lençóis (refogados)
de pepitas (folhadas)

Alkaseltzer (não remove)
alfaces (verdelíneos)
nabos (yellow-blue)


Diogo Balzirossi é imbatível. Faz poesia gastronômica com a mesma destreza com que minha prima esparrama suas receitas pela cozinha. Uma cozinha florida, enjoada, apinhada de potes com ervas de provence de validade vencida, que ela nem usa, mas enfeitam que é uma beleza.
Hoje à noite, ela me avisou: teremos ensopados encorpados e temperos ligeiros. Da última vez, serviu berinjela meia-tigela. Modesta, ignora se tal pitéu me apetecéu. Mas sabe muito bem distinguir os falsos dos verdadeiros apreciadores da arte. Principalmente depois de ter experimentado a obstinada rejeição da própria filha, que dispensou seu leite, e sua forquilha.
Para minha prima, aceitar é sinônimo de gostar. E ainda rima.
Sou calvo e obeso, mas não sou bobo. Uso roupas incomuns, é bem verdade, camisas listradas de cores mortas, calças largas e sapatos rotos.
Mas sei agradar quando vale a pena.
A caminho da casa da minha prima passo por uma plácida praça. Há um garoto maroto que, sobremaneira, saboreia um honestíssimo pirulito de morango.
Revolve-se-me o estômago, o trato gastro colapsa. A psicorresultante produz impasse.
Pois bem, admito: além de plagiador de poesias gastronômicas, sou ladrão de pirulito.


Arnaldo Bloch, na antologia de contos Geração 90: os transgressores, organização de Nelson de Oliveira, 2003.