12.2.04

12 de fevereiro de 2004


Depois do café de uma manhã das comuns entrei no meu quarto. Fechei a porta. Ninguém me ouviria. Comecei a rasgar todos os meus livros. Primeiro os contemporâneos, depois os clássicos. Não tinha ninguém ali para me impedir. Eu não chorava. Minhas mãos trabalhavam rápido. Paul Bowles, Thomas Bernhard, Fernando Pessoa, Oswald de Andrade, Maiakovski, dicionários, glossários, antologias, revistas culturais, jornais, toda a Biblioteca Nacional e Drummond. Eu não havia bebido, sem frontal, sem referência, sem vontade de morrer, sem filosofia. A literatura é mercado. A arte é mercado. E uma idiota como eu acha que a vida é isso. Aparecer escrevendo. Vou parar de escrever, vou acabar com este blog, vou virar pedinte nas ruas de Copacabana, carregando um saco dos livros que rasguei. Eu nem deveria estar escrevendo isso aqui, vocês vão achar que é mais um post. Vou vender letras para sobreviver. Livros rasgados. Me dê um real aí que eu te dou um pedaço de livro. Dessas bostas que eu leio todo dia, por prazer e para sobreviver. Dessas bostas que as editoras compram e publicam. Destas bostas de editoras. Grandes e pequenas. Todas a mesma merda. Só muda o nome. Todas nepotistas, todas tribalistas. Se você não é do comando, tá fora. Sei, não precisa me dizer, ressentida? Não, realista. Leio leio os novos, bonitos, vazios, leio leio os velhos, bonitos, os clássicos. Todos que procuro imitar, que eles imitaram e imitam também. Daí vem aquele papinho chato, escritor de blog? Não, não sou escritor de blog, o blog é um instrumento. Vá se foder. O blog é um instrumento até você achar uma editora que te banque. Até tudo que você pensa sair em forma de papel. Papel para vender. Onde uns meia dúzia pagam e você continua duro, porque não é um Paulo Coelho ou Ubaldo, nem está falando de sexo, doenças ou de cidades de deus. Daí você sai em papel e abandona o blog ou o transforma em instrumento de marketing pessoal, pra você vender o seu livrinho on-line medíocre, porque você não é uma Clarice Lispector, você não é um Paulo Francis, você não é um John Fante, você não é uma Hilda Hilst, você não é. Para mimar a sua vaidade, você quer o livrinho em papel pra descolar, quem sabe, uma notinha ou resenha em jornal, que vai dizer que você escreve de uma forma diferente e moderna o que outros cansaram de dizer. Ok, sem problema, faça o que quiser. Quem sou eu pra julgar? Pouco me importa, se você quer saber. Acabei de rasgar meu último livro agora. Rápido, não foi? Acredite se quiser. Mas, apesar de tudo, continue escrevendo se lhe der na telha, pois pode ser que um dia a gente aprenda e a vida pare de imprimir rascunhos.