20.1.04

Prezado editor


Queridíssimo, nem sei como desculpar-me com você depois de séculos sem lhe dar notícias minhas. Derramar-me em mil perdões seria pouco. Estou atrasadíssima, tudo isto eu sei. Imagino que foi há três meses a última vez que lhe prometi a entrega dos originais do meu A Abóbora-Moranga, não é? Não fique acabrunhado comigo, logo você, que me cobre de tantas delicadezas. Você, mais do que qualquer um, sabe como somos, nós os escritores. Além da nonchalance habitual, há sempre aquela correção de última hora, um acréscimo aqui, um corte ali, some-se a tudo a eterna dúvida de estar fazendo a coisa certa. Houve certos dias em que, transtornada por minhas notórias enxaquecas, tive vontade de atear fogo às laudas, como Kafka. Mas depois me lembrava que teria de datilografar tudo novamente (não me fale de computadores) e a vontade passava. Ah, nessas horas gostaria eu de ser poeta, pois todo poeta, disse sabiamente Cocteau, é um escritor que não escreve. Mas, meu querido, alegre-se: dei um fechamento ao livro afinal e só me resta escolher um autor para o "prefácio interessantíssimo". Preciso de tua opinião, não sei se procuro um amigo jornalista ou um amigo acadêmico. O que acha? Meu amigo jornalista goza de notoriedade, sem dúvida sua participação dará maior visibilidade ao meu romance, porém um acadêmico é sempre um acadêmico, e credibilidade não se discute. Como são difíceis as coisas neste país, não é mesmo? Ser escritor no Brasil é sujeitar-se a cada uma... mas não me queixo, os afrescos de Michelangelo foram pintados com cerdas de porco e muita cal e mesmo assim deu no que deu. Amanhã mesmo minha filha Isabel passará aí para entregar-lhe o livro pronto (não confio no correio). E por favor, fique de olho na produção. Qual o problema dos teus revisores? Eles ganham por vírgula?

Com muita estima e lembranças minhas à Lucinha
de sua amiga
N. B.

P.S. Como vão as negociações para a edição do meu primeiro romance em braille? Escreva-me dizendo. E pensando bem agora, acho que vou preferir o jornalista. Ele pode ser meio burrinho, mas é muito lido e simpático. Não quero que você se queixe das vendas, meu caro. Não se esqueça de me agendar Leda Nagle e Jô Soares, e outros de que não me lembro no momento. Uma menção na novela "Celebridade" seria recomendável. Tem sempre um personagem segurando um livro por lá. Deixe que eu fale pessoalmente com B. Ele gosta de mimos. Beijinhos.