9.1.04

Prezado editor


Estou chegando do trabalho agora e ainda sob o forte impacto de suas observações críticas ao meu novo romance. Confesso que assim, pelo telefone, foi duro ouvir suas palavras que, embora sinceras, me pegaram de surpresa. Eu achava que não teríamos tanto o que discutir pois acordamos todo o projeto antes mesmo de eu começar a escrever. E agora essa. Não sei se poderei reduzir um livro de 602 páginas a quase a metade sem prejuízo do eixo central. Você achou o estilo "morno", mas na minha opinião é o livro mais bem escrito que já fiz. É um estilo "escrito", não falado. Talvez por isso tenha estranhado, hoje tudo que se lê pode ser conversado numa mesa de bar. Fico aqui pensando em como alterar os elementos sem precisar mudar a fórmula. Não há tempo para reescrever tudo, não te parece? Se eu perder esta Bienal, estou lascado. Toda a divulgação depende disto, eu sei. Vai me dar uma trabalheira dos diabos mas creio que chegaremos a um consenso. Vou cortar alguns personagens, como você sugeriu, eliminar redundâncias (longas descrições físicas, associações de imagens e idéias, reflexões, enfim, tudo que "pese" na narrativa, vou desliteraturizá-la) e relatos extensos de fatos não associados, talvez até desloque o foco da trama do nordeste para o sudeste, o que acha? Eu sei que é um romance histórico, mas o narrador poderia relatar tudo de longe, sem precisar estar em campo. Daí poderíamos até descartar o material iconográfico, o que enxugaria o livro, eliminando despesas. Acho que no prazo de um mês eu concluiria tudo, dando o livro por acabado. Aguardo sua resposta e as sugestões oportunas de sempre. Não sei o que seria de mim sem o seu raciocínio sintético esfriando minhas verborragias e sentenciosidades.

Grande abraço do seu

P. N.