14.1.04

"A mulher tem uma natureza lunar, fluida. Em oposição ao homem, que é solar, concreto." Dizia minha vó, enquanto lia um exemplar da Seleções e eu, adolescente, mergulhava meu cabelo na água oxigenada para que ficassem louros. Eu queria ser surfista. "Ser mulher, no meu tempo, era ser fraca, viver nervosa, com a cabeça na lua, precisando de fortificantes." Eu penteava meu cabelo fio por fio, bebia litros de suco de laranja com cenoura para dourar a pele e aumentava o som da tv para encobrir aquela conversa toda outra vez. Minha avó fora sufragista, ou pelo menos era isso que vivia dizendo que foi nos seus tempos de solteira. Eu conhecia de cor aquelas velhas histórias de romper com o monopólio masculino, das lutas feministas, da coragem, moral e disciplina que eram necessárias para desbancar o patriarcado. Quando jovem, o sonho dela, nunca realizado, foi partir para a frente de batalha, como as russas fizeram. Mas como as feministas brasileiras sempre foram mais acanhadas e legalistas, minha vó não viu chance de romper barreiras maiores com o seu idealismo. As discussões nos almoços de domingo da família freqüentemente eram pontuadas por minha vó rebatendo a falsa idéia de que o cérebro mais leve e com menos circunvoluções da mulher gerava a suposta fragilidade feminina. Ela adorava lançar contra-argumentos científicos. Eu não entendia nada na época e saía direto da mesa para o sofá porque a conversa me dava sono. "Toda a mulher é uma degenerada por natureza, mamãe." Era o meu tio, leitor contumaz de Nelson Rodrigues, de quem se orgulhava de ser vizinho no Leme além de personagem de uma das crônicas do famoso autor. "Essa degenerescência é responsável por sua total incapacidade de se adaptar ao meio, seja qual for. A degeneração física, uma construção defeituosa, é provocada pelo óvulo." Continuava ele, citando um famoso psiquiatra naturalista que na época já era ultrapassado. Minha avó, que nunca foi de resistir a provocações, batia com o garfo no prato e faíscas voavam: "Quer dizer que, para você, toda mulher na menopausa é perfeita! Vira homem!" Meu tio gargalhava e se retirava da mesa para a varanda, onde terminava de rir baixinho. "E você, Letícia", ela se virava contra minha mãe quando a força de seus argumentos não era levada a sério, "cuide direito da educação desta menina. Ela não sai da praia. Do colégio para a praia, da praia para o colégio. Onde já se viu?" A menina era eu, no sofá dormindo. Há duas semanas que chovia e eu já estava perdendo o bronzeado. "Na minha época eu lia revistas francesas, toda a literatura francesa. Essa garota só lê gibis e quer ser surfista!" Ela estava exagerando, eu era a primeira aluna da classe, sem fazer esforço, é claro. Nisso tinha razão. Minha mãe balançava a cabeça e retirava os pratos, servil. Meu pai já tinha fugido para a sala de tv. Comerciante de calçados, nunca se interessava por esses debates familiares: "Um dia ainda embolacho essa velha", ele resmungava arrastando os chinelos. Nem preciso dizer que o domingo acabava com todos assistindo ao "Fantástico". O patriarcalismo, o matriarcalismo e o servilismo se aconchegavam bem na frente da tv onde eu ouvia, feliz, a previsão do tempo para amanhã. Sol claro.