2.1.04

Escritores não são ratos


Tudo o que os escritores dizem é uma grande bobagem, me assegurou T. enquanto aguardávamos que nos trouxessem o cardápio. Tudo o que declaram, em entrevistas, em artigos na imprensa, em sites da internet, em seminários, nada presta. É tudo lixo, imundície.

Escritores deviam ficar de boca fechada, T. disse ainda, e se fosse possível (era uma pena que isso não fosse possível, ele comentou) deviam se tornar invisíveis. Se falam, é para mentir. Se aparecem em público, ainda que permaneçam calados, é para distrair a atenção dos leitores. Se põem só a ponta do nariz para fora da cortina, é para infernizar a vida dos outros.

Conheci T. por acaso, num almoço da editora. Só trocamos duas palavras no banheiro, mesmo assim porque ele me pediu para ajudá-lo com a tampa do toalheiro, que não conseguia abrir. Não gostei de sua cara. Logo depois da sobremesa, ele veio com aquela conversa. Veja você, T. me disse, aquela senhora nariguda, que escreve contos sentimentais, só publica porque os editores temem seu marido. Aquele cara de bigodes só tem seus romances publicados porque é um jornalista influente. Aquele rapaz triste, cujos livros os editores desprezam, ele continuou, só consegue publicar porque seu primeiro romance foi elogiado em Paris. Todos uns mentirosos, uns pulhas, ele disse.

Todos com exceção de T., que passa os dias em casa para não se contaminar com a vida literária, que se sente perseguido pelos críticos e acredita, sinceramente, que muitos escritores estão na literatura só como intrusos. Só escrevem por dinheiro, T. ainda comentou, nada têm a ver com a literatura, limitam-se a tirar proveito dela.

Não sei por que resolvi convidar T. para almoçar no Budapeste, se bastaria entrevistá-lo por telefone. Mas T. não gosta de entrevistas e desconfia do jornalismo literário. Achei que cara a cara, vendo que não sou um rato, ele relaxaria. Foi uma bobagem. Fiz minhas perguntas, ele respondeu, tudo muito adequado. Mas havia um zumbido, quase imperceptível, que deformava nossas palavras e transformava aquela conversa num suplício.

Você mesmo, T. me disse, não passa de um mentiroso. Como é possível fazer jornalismo literário e ser escritor? Aquilo foi agressivo, mas ele falou com o jeito neutro do médico que te comunica um diagnóstico grave. Você devia parar de escrever, T. continuou. Pois eu acho que você é um sujeito de muito talento, limitei-me a responder. Aprendi com meu pai que, às vezes, a delicadeza é a melhor forma de grosseria. Você dá ao sujeito o que ele não espera e aquilo dói mais que tudo.

Eu me esforçara para gostar do último livro de T. porque o sr. Espinheira, o grande crítico, o definiu como "desnorteante". Nem sempre concordo com as opiniões do sr. Espinheira. Aquele julgamento, contudo, me levara a ser tolerante com T. -- e agora T. vinha com aquilo.

Ergui-me, peguei o exemplar do romance que ele acabara de me autografar, abri numa página qualquer e, em alto e bom tom, comecei a ler. A primeira reação dos que almoçavam no Budapeste foi o silêncio reverente. Aos poucos, contudo, os filés foram deixados pelo meio, as contas foram pedidas com urgência e o restaurante esvaziou.

Quando percebeu o que acontecia, T. se levantou e foi embora. Ainda insisti por uns parágrafos a mais, até que uma senhora de bigodes, erguendo-se agarrada à bolsa, me disse: "O senhor me poupou de um constrangimento. Eu planejava dar esse lixo para minha filha."

Agora T. espalha por aí que sou um sujeito intratável. Talvez eu seja só um temperamental. Talvez não. Como T. mesmo disse, escritores são mentirosos e deviam permanecer calados. Ele também.

Só existe hoje um escritor realmente importante no Brasil, a mulher de T. costuma dizer, em público. Meu marido, ela enche a boca para revelar. Meu marido está revirando a literatura brasileira.

O que se pode fazer com uma tolice desse tamanho, que mais parece a publicidade de uma loja de agasalhos double-face? Provavelmente nada. Já fiz a minha parte, já expus o livro de T. à prova de seus leitores. Eu amo os livros e não aprecio que sejam odiados, mas às vezes é preciso ser forte.


José Castello, em José Castello, Melhores Crônicas, 2003.