24.1.04

1 conto




Quase 11 horas: Acordo com uma puta dor de cabeça, torcicolo e a unha encravada latejando. O corpo encharcado de suor. Perdi a conta de quantos mosquitos me morderam essa noite. Se eu não bebesse tanto, poderia até me lembrar do nome do corno que me indicou esta pensão. Hospedagem Haway. Que merda de lugar, que merda de cidade. Uma escada de 39 degraus para quem sobe e desce. Um corredor coberto de pó e pontas de cigarro. Paredes verdes pra qualquer lado que se olhe. No final do corredor o quarto da senhoria é uma TV que grita e canta esganiçada. Respiro fundo e todo o cheiro de sebo derretido do planeta se mistura com o de gordura queimada. Acho que vou almoçar. 

11:10: Caralho, cadê o outro pé da porra da sandália? Vou precisar delas pra tomar banho. O chão do box é preto, ladrilhos cheios de meleca. O chuveiro elétrico vaza água por cima. Adeus banho quente. Hoje é o meu primeiro dia de trabalho nas Tintas Marajá e não posso dar pinta de quem veio de uma charneca no cu do meio do mato que é de onde eu vim. Um buraco. Onde não aprendi a ser rei do futebol, rei da coca, rei do samba, rei de nada. O emprego é de auxiliar de balcão, mas só o que faço é carregar tranqueira. O dono é mais sujo do que eu, talvez eu não devesse me preocupar tanto com as aparências. Tintas Marajá, rua Frei Caneca. Rio de Janeiro. Esta cidade é uma bosta, mas na banca da esquina os cartões-postais mostram fotos pra provar que todos estão mentindo quando dizem a verdade. O centro da cidade é sujo, o chão gruda no sapato, o ar fede a fumaça, todo mundo buzina, todo mundo grita, o calor é infernal, os botecos têm cheiro de fritura, cu e cerveja choca, o que você pode chamar de mijo. Mas mesmo assim ontem eu vi um bando de turistas burros fotografando os prédios decrépitos do Rio antigo, todos encardidos e pixados e os gringos clicando: Belíssimo. Vão tomar no cu. 

11:34: Feijão, uma caralhada de arroz e 2 almôndegas frias, preço: 8 reais. O dono das Tintas Marajá disse pra eu chegar depois de meio-dia que estaria bom. Ele é que manda. O garfo entorta na hora de cravar a almôndega. Pra arrematar, peço um cafezinho e água da bica. Acho que me contrataram pra eu ficar carregando lata de tinta, da caminhonete para o depósito, do depósito para a caminhonete. Salário mínimo + uns trocados de um bico noturno num posto Petrobras, dá pra levar. Talvez por estar escolada de tanto levar cano de vagabundo, a dona da pensão me perguntou do meu trabalho. Eu disse que trabalhava na Petrobras. Se acreditou ou não, sua expressão azeda não me disse, mas ela me deu o quarto menos sujo da Hospedagem Haway, de frente para uma oficina de lanternagem. Trabalhar na Petrobras é o sonho de todo mundo. Pra mim, me pagando em dia já é lucro, a marca do patrão que se foda. Duas putas entram e pedem uma cerveja no balcão. A mulata reclama que está quente e coça a bunda. A meia da perna esquerda tem um fio puxado bem em cima de uma variz que vai do alto da coxa até o tornozelo. Mas ninguém repara. Eu cato umas moedas no bolso da calça e despejo sobre a mesa. A loura falsa me vê passar sem interesse e as duas soltam uma gargalhada nas minhas costas. Minha camiseta suada gruda no peito e sinto uma ligeira tontura quando acelero os passos pela rua. Atravessado na calçada, um mendigo bêbado com um curativo purulento na perna dorme de boca aberta. A fumaça do ônibus cai sobre nós dois e se dispersa na cidade. Talvez cicatrize. 

Meio-dia em ponto chego no trabalho e um tipinho asqueroso que eu não conhecia se apresenta como gerente da loja. Nunca vi o sujeito antes, eu havia tratado tudo com o dono, que conheci no banheiro de um bilhar da Mem de Sá, todo vomitado e dormindo na boca da privada. Eu ajudei o velho a se limpar e ele me agradeceu com o emprego na sua "firma" umas dez cachaças mais tarde. O gerente então pergunta qual o meu nível escolar. Primeiro grau completo, Supletivo Dallas, Baixada Fluminense. Pela resposta ele viu que eu não era o retardado que esperava que fosse. Caixas e mais caixas de latas de tinta. A caminhonete dispara abarrotada depois que eu carrego tudo. São duas para a loja toda. Uma delas toda comida de ferrugem por dentro. A camiseta branca que comprei num saldão da Riachuelo fica marrom. Antes de eu ir embora, o gerente me diz que meio-expediente é meio-salário. Puta que pariu. Serviço de jumento e pagando uma miséria. Dois pastéis de carne e um caldo de cana depois, me apresso até o posto de gasolina para mais uma noitada calibrando pneus e espumando para-brisa. E o pior é que nem posso ficar reclamando de dinheiro com os caras do posto porque senão o frentista-chefe do meu turno vem com aquela conversa pra me convencer a vender um rim. Diz que arranjaria tudo pra mim com direito a dez por cento do que eu recebesse pela transação. Eu teria que viajar e depois da cirurgia ficaria "afastado" um tempo do Rio. Aquilo não me cheirava bem e eu comecei a evitar o cara. Ele percebeu e agora só me oferece drogas e viagras. Pensa que sou brocha. Chego no posto e uma fila de carros me espera: calibrar e lavar. Os filhos da puta querem o carro limpinho pro feriadão. 

Sento numa mesa no fundo do bilhar 75 com uma garrafa de cerveja e fico filmando os tacos em movimento. Talvez faça uma fezinha mas não conheço nenhum dos caras e ouvi o garçom dizer que o lugar estava cheio de canas. Estou estourado, só consegui sair do posto à uma hora da manhã quando o movimento caiu. Anoto essas coisas num caderno que trago comigo porque tenho essa mania, vontade de rabiscar pra passar o tempo, ficar sujando as folhas em branco. Conversando sozinho com a caneta, faço desenhos, contas, invento nomes e telefones de ninguém, uma lista de lugares onde já trabalhei, onde morei, nomes das garotas que comi, que não comi, dos filhos da puta que me sacanearam, conversas que já ouvi e não conto pra ninguém, pesadelos. Anoto tudo. O pessoal lá de casa me achava maluco e me olhava enviezado. Família. Uma traveca pisca pra mim do balcão e um minuto depois está puxando uma cadeira do meu lado. Ela já está trincada e o silicone das bochechas treme. Os tacos param. Começo a suar. A traveca finge interesse no que escrevo e se estica pra perto de mim enquanto me passa uma bolsinha por baixo da mesa. Pede pra eu guardar que depois pega comigo. Ela implora e se afasta. Os tacos voltam a se mexer. Eu esvazio o copo de cerveja e me fixo no reflexo das bolas sobre a mesa de bilhar. Lá pelas três da manhã o jogo dos canas acaba e eles se mandam. Eu vomito tudo no banheiro, lavo o rosto e vejo pelo espelho sujo que a traveca está atrás de mim, sorrindo. Lembro da bolsinha. Ela agradece e me alisa o pau por cima da calça. Eu desço o ziper e começo a mijar. Ela quer mais e eu deixo. Me convida pra aparecer no ensaio da Unidos do Cabuçu amanhã e vai embora. O garçom guarda a minha gorjeta magra e me passa um folheto de uma assembleia de Deus. Eu dou as costas e na rua dois camburões passam voando na contramão. Fuzis para o alto. Saio da gafieira quando o dia quer amanhecer e sob os arcos da Lapa uma pivete me negocia o rabo por 50 reais. Vai a merda. Quero me jogar na cama mas a Haway ainda está longe. Vou a pé. Meu caderno dentro da calça arranha minha pele. Na porta da pensão uma mulher me pede 30 paus em troca de um boquete. Não tem cara de puta. Ela está nervosa e não quer subir. Vamos para trás de uma banca de jornal e ela se ajoelha. Eu viro o rosto pra cima e uma nesga de sol me bate no olho. Ela perde a paciência comigo, fecha minha calça e eu lhe dou 10 paus. Um caveirão estaciona na esquina em frente. Subo correndo os 39 degraus e jogo meu caderno no latão de lixo do corredor. Minha barriga sangra. Não me custa nada fechar a porta do quarto.