8.12.03

Grande Concurso Literário "Piores Contos Brasileiros"- O Resultado


Ufa, até que enfim a Comissão Julgadora chegou a um consenso e decidiu pelo resultado deste magnânimo concurso. Horas intermináveis de discussão, os contos foram lidos, relidos, analisados, vasculhados, linha por linha, letra por letra, sob as mais diversas óticas de teorias literárias diferentes, auto-referentes, comparadas, enfim, tudo foi esmiuçado para chegarmos à conclusão de que o conto vencedor é sem dúvida o mais podre que esta comissão já leu em sua longa carreira nos bastidores da Academia. Senhoras e senhores, o conto vencedor do nosso grande concurso literário "Piores Contos Brasileiros" foi


1º) "Minha História", de Maricleide de Jesus


que, infelizmente, para o pesar do mundo das letras pátrias, prefere permanecer no anonimato. Vocês nunca saberão de quem se trata, só eu sei, claro, pois a mim ela revelou sua identidade, e minha boca é um túmulo! Só posso lhes garantir que é blogueira, coitada. Passemos então aos outros classificados, não menos importantes, que deliciaram esta comissão com sua originalidade.

2º) "Uma Noite Inesquecível", de Pyra Olímpica (muito meiga)

3°) "O Pior Conto Brasileiro", de Angela Castelo (título persuasivo, mas a comissão estava atenta)

4º) "Marimbondos de Porre ou Abelhas de Fogo, Tanto Faz", de Sarna Maria (um esmero bíblico)

5°) "No Coletivo", de Márcia Soares (uma dama do lotação pós-moderna)

6º) "Proseabundo", do Letra Morta (muito instrutivo)

7º) "Fuga Desesperada dos Vales Verdes que Nunca Chegam aos Neuróticos do Coração", de Gabriel Silveira (densa psicopatologia)

8º) "Vitória", de Renata Finaendor (nossa Jane Austen tupiniquim)

9º) "Quando o Sr. Carmela Saiu de Férias", de Daniel Guimarães (o melhor título)

10º) "O Pior Homem do Mundo", de Miranda Neto (um outsider)



E a nossa Menção Honrosa foi para o conto:

-- "Hasta Cuando, Diós Mio, Hasta Cuando?", de Erazê Martinho. (Uma verdadeira aula. Precisamos aprender com ele, pessoal.)


Bem, concurso que se preza tem que ter impasse, tem que ter empate, para levantar polêmica. Apesar do aviso na porta "Piores Contos", alguns desavisados enviaram contos bons, quer dizer, seria injustiça para com os outros e para com eles mesmos, pois seriam desclassificados de cara. Por isso, a comissão criou, de última hora, a categoria Menção Desonrosa para resolver o impasse. Só que dois contos mereceram a vitória. Os dois serão publicados também. São eles:

-- "Ecos de Uma Noite", de Incitatus de Preto (nosso Jim Morrison da Consolação)

-- "Tomorrow Will Be Different", de Gabriel Pagnano (escrevendo neste estilo logo será um best-seller nas "indie").


É isso, amigos. Espero que tenham gostado da brincadeira. Os vencedores Maricleide de Jesus e Erazê Martinho logo estarão recebendo em casa os prêmios prometidos. Agradeço a todos pela força. A partir de hoje começo a publicar os contos vitoriosos. Não todos de uma vez, porque cansará nossas meninges. Gozemos aos pouquinhos.

10º lugar

O Pior Homem do Mundo


Não há mais dançarinos no salão, mas a música insiste em soar. No chão opaco, apenas os restos do festim, corpos empilhados após a chacina. O nada. Onipresente, pisca zombeteiro. Nos amigos e nos desconhecidos, nos botecos e nos restaurantes chiques que não freqüento, no meu trabalho e na minha vagabundagem.
Todos continuam a se mover, bonecos em quem uma mão invisível e decrépita deu corda demais. Continuam a falar, sorrir, gritar, assobiar, cantar e a chacoalhar suas bundas para um lado e para o outro, soltando peidos fedorentos que aspiram com prazer. Tentam soar profundos em suas preocupações minúsculas. Têm tanto medo quanto eu. Eles também percebem a merda avançando, mas fingem que tudo vai bem. Como se adiantasse alguma coisa.
Precisamos nos iludir. Precisamos beber e foder. Precisamos não pensar e seguir em frente, em fila indiana, derramando futilmente nosso sangue, consumindo nossos corpos na fogueira bizarra que jamais afastará o medonho fantasma que habita a escuridão total da caverna.
Um grito estilhaçou a noite. Logo, tudo voltou ao mesmo lugar. As mil luzes azuladas piscando frenéticas em sincronia demoníaca nas janelas.
Tânia me olha e sei que está desesperada. Espera que eu vá até ela, a abrace, encoste sua cabeça em meu peito, alise seus cabelos, seu rosto, seus ombros e braços, enxugue suas lágrimas com minha língua e a conforte, dizendo que não se preocupe, eu ainda estou ali. Ela quer se abandonar em mim. Quer que eu a carregue nos braços e a coloque sobre a cama e a foda como na primeira vez. Tânia está imóvel sobre o sofá, com uma revista nas mãos. Tem um rosto bonito. Admiro a estrutura óssea de sua cabeça. Tem algo de nobre.
Não encontro nada para lhe dizer. Vou até a geladeira e pego a última das cervejas escondidas. Acabo com ela rapidamente, em poucos e grandes goles. Arroto. Tânia faz uma careta. Gargalhada histérica. De repente, pálida, joga a revista para o alto e corre para o quarto. Escuto seus soluços. Preciso mijar. No caminho para o banheiro dou uma espiada nela. Não se deu sequer ao trabalho de usar a cama. Está no chão, contorcendo-se em cólicas. Diante do vaso, vomito tudo que me vai na barriga. Putos safados! Assistam à minha derrocada, saboreiem meus piores momentos. É só o que lhes resta, canalhas. Eu não dou a mínima.

-- Miranda Neto


9º lugar

Quando o Sr. Carmela Saiu de Férias


Retornando do trabalho, mala e paletó a cargo do braço esquerdo. O braço direito esticado. Polegar, indicador e médio da mão desse braço abraçando a chave, responsável pela porta do apartamento entreaberta. Tarde da noite, não haveria mesmo problema com aquele silêncio todo, exceto talvez algum assassino shinobi que, havendo passado janela adentro, poucos minutos antes de sua chegada, poderia estar aguardando que a vítima indefesa entrasse assobiando no apartamento, para degolá-la.
Absurdo aquilo. Esboçou um sorriso paranóico. Permaneceu no mesmo lugar, na mesma posição, com um misto de medo e autopiedade, por ser louco de pensar na hipótese. Afinal, mais provável seria que, imediatamente após a porta, houvesse uma finíssima linha à altura de seus tornozelos que, ao mais leve toque, faria descer do teto uma lâmina afiadíssima, capaz de parti-lo ao meio.
Olhou para o chão. Ora, mas veja só! Que diabos! Medo do silêncio, medo do escuro, medo do ninja, quando podia ser que, exatamente como havia ocorrido com seu vizinho há seis meses atrás, pudesse passar-lhe correndo pelas costas uma mulher ensandecida, loura e com somente um dos pés calçados, nua e que, gritando, seria capaz de mata-lo de susto! Olhou rápido para trás. Alívio. A loura semidescalça não estava lá, e as luzes do corredor ainda permaneceriam acesas, embora restasse pouco tempo, já que eram automáticas, acendendo-se somente quando alguém passava.
Riu-se. Mas onde é que a imaginação pode levar um homem, meu Deus? Tudo aquilo o fez lembrar, quase que automaticamente, de um filme aterrorizante em que quase todas as personagens eram assassinadas, mas não sem antes receberem um pequeno canudo plástico de presente. Sobressaltado, procurou canudos dentro da mala, dentro dos bolsos. Nada. Ufa!
E foi então que aconteceu o pior: as luzes do corredor, uma a uma, vieram-se apagando, impiedosamente, a despeito de qualquer oração ou súplica que pudesse fazer durante aquela aterrorizante fração de segundo. De um salto, entrou no apartamento e bateu a porta. Escuro. Atirou-se ao chão para proteger-se da lâmina que já deveria estar vindo ao encontro de sua caixa craniana, por causa da cordinha finíssima tocada por seus pés, ao entrar bruscamente no apartamento.
Quanto absurdo! Esfregou as mãos na cabeça, chorou. Estava enlouquecendo, era certo. De onde vinha tudo aquilo? Que idéias malucas eram aquelas? Precisava de descanso. De férias. Pediu-as ao patrão no dia seguinte, que não hesitou em concedê-las, funcionário exemplar que era o veterano Sr. Carmela.
Quando o avião já decolava, uma aeromoça de traços orientais, com cabelos pintados de loiro, veio oferecer-lhe bebida e petiscos, como havia feito com todos os outros passageiros. Mas, por infelicidade do destino, e por ordem da companhia aérea, trajava sapatos de cores diferentes e um avental estampado com figuras características do Japão feudal. E foi então que o Sr. Carmela, num acesso de desespero, puxou o canudo que estava sobre a bandeja e o enfiou no ouvido da mulher, rindo-se, maquiavelicamente, dos espasmos que a pobre profissional sofria, aos estertores da morte. Quando ela parou de estrebuchar, ele gritou, com os braços para o alto:

-- Canudo é o caralho!


-- Daniel Guimarães



Amanhã mais piores contos publicados aqui. Não percam.