11.12.03

Concurso "Piores Contos"-- O Resultado (cont.)


3º) lugar

O Pior Conto Brasileiro


Ele pigarreou, alisou o bigodinho fino, cruzou as pernas e tapou o nariz com o lenço bordado. Não gostava de viver misturado àquela ralé, aquilo podia ser contagioso. Um amontoado de gente promíscua, suja, crianças cheias de ranho, vermes, e aquelas balas passando, as facas na parede, gente gritando, beijos indecentes… Vinha de uma estirpe nobre, da biblioteca do gabinete da família Real. Pertencia ao mais antigo compêndio de contos do país. Era da época em que se escrevia com penas de pássaros criados em gaiolas douradas. Por muitos anos, passara por mãos sedosas, cheirando a perfume francês ou fora acariciado por luvas de pelica. O requinte era seu lema. Não abria mão das boas letras. Nunca!

E agora, ninguém mais reconhecia seu talento. O mundo estava um caos. Havia sido inundado por aquela escrita violenta, rasteira, que tinha a ousadia de se denominar literatura. Aquilo lhe fazia mal. Sentia tonturas, náusea, mas precisava se recompor. Tomava diariamente pílulas de aliterações e fazia mergulhos nas obras imortais para continuar sobrevivendo. Retocava a maquiagem três vezes ao dia, mas parecia que ninguém olhava para ele. Sentia-se invisível, anônimo. Não! Que horror! O anonimato era um tabu, o mesmo que ser bastardo. Esse pensamento lhe causou um tremor. Tomou um cálice de vinho do Porto num só gole. Um arroto o sacudiu e foi seguido de um gritinho. O que estava acontecendo com ele? Nunca tivera esse tipo de comportamento. Agora lhe faltava o fecho, o grande final! Saiu correndo pela estação da Central do Brasil e, ao ver um trem se aproximando, se jogou sobre os trilhos cinematograficamente. Fim.

-- Angela Castelo



2º) lugar

Uma Noite Inesquecível


Em 1972, aos 26 anos, fui convidada para lecionar na escola de uma fazenda de cana incrustada no sertão alagoano, na pequena cidade de Nova Primavera. Ao chegar, ainda descarregando as malas da charrete que me conduzira à Casa Grande, como era chamada a sede da fazenda, topei com um homem rude, másculo e que me olhava parecendo não me ver. Na mesma hora, um arrepio úmido tomou conta de mim e desejei ser possuída ali mesmo, em meio aos cavalos e defronte ao canavial.

Tentando ser amável, sorri e pedi-lhe que avisasse a Seu Matias, dono da fazenda, da minha chegada.. "Não sou seu empregado e não recebo ordens de mulheres." Sem esperar resposta, deu-me as costas, montou em seu cavalo e saiu em disparada.

"Vejo que já conheceu meu filho mais velho, Altemir. Não se incomode com ele, apesar de seus modos broncos, é um bom moço." Era Matias, apertando gentilmente minhas mãos, e dando-me as boas-vindas.

O trabalho com as crianças tomava meu dia, mas à noite eu sonhava com aquele homem que me incendiava. Nosso relacionamento não passava de bons-dias secos, ele era frio e formal, até que algumas semanas depois de nosso primeiro encontro, numa noite fria, ouvi passos próximos ao meu chalé. Corri para a porta e Altemir estava lá.

Sôfregos de paixão, nos abraçamos, unindo nossos corpos e senti seu membro rígido de encontro ao tecido fino de minha camisola sexy. Nos beijos, eu sentia seu hálito de tabaco. Seu queixo forte empurrava aquela língua macia pela minha garganta adentro.

Arranquei-lhe a camisa, percorri seu abdome enxuto e, tateando por dentro de seus jeans surrados, encontrei o que tanto desejara. Com um gemido de prazer, ele me possuiu. O amor explodiu em jatos quentes e eu o cavalguei como uma amazona desvairada. Naquele momento, desejei morrer nos braços do homem que me penetrava.

Amanheceu e, perdidos em carícias, não nos demos conta de que era a hora da fazenda acordar quando batidas na porta acabaram com nosso torpor. Era Seu Matias que vinha verificar o porquê de minha ausência no desjejum da Casa Grande. Surpreso em nos ver, e sem imaginar que seu filho fosse capaz de copular com a mulher pela qual ele também se apaixonara, levou a mão ao peito e desabou no chão vitimado por um infarto fulminante.

Culpando-me pela morte do pai, Altemir mandou-me embora da fazenda e de sua vida. Voltei à cidade grande e, hoje em dia, escrevo poemas para extravasar minha dor, mas ainda trago esperanças de reencontrar o meu rústico amor.

-- Pyra Olímpica



Não percam amanhã a publicação dos contos vencedores que conseguiram merecidamente o primeiro lugar e a menção honrosa. Indiscutíveis. Ai, já estou ficando meio zureta, é impressão minha? Estes contos são uma tortura. O pessoal exagerou...