13.12.03

Concurso "Piores Contos" - final


Menção Desonrosa:


Ecos de uma noite

As personagens fantasmagóricas que circundam minha alma e com as quais esbarro sem me dar conta, às vezes por puro acaso, às vezes premeditando olhares, às vezes por pura falta de opção, não importa, estão todas mortas novamente. Talvez sejam elas os replicantes de quem um dia deixei em um canto qualquer de um quarto qualquer, porque não cabiam em minha mala de viagem. E aquela história daquele desconhecido, grafada em papel-jornal? Bem. Essa também não me é totalmente desconhecida. É a mesma que já um dia, pelo menos, ouvi falar e que se impregnou em um canto qualquer da minha memória. Mas ela também não me emociona! Assim como não me emociona mais fazer a barba, cortar o cabelo e olhar o espelho pelo avesso. Será outra recusa? Sei lá. Seria prudente da minha parte saber dos outros, principalmente dos navegantes aleatórios que passam pelos becos da cidade, sem deixar rastros e rostos? Acho que não. Mesmo porque são viajantes que trilham apenas as rotas do previsível, com mapas já decifrados e bússolas viciadas. Bem, acho que agora vou pôr a minha pior roupa e ir aquele bar tomar uma bebida qualquer. Ver uma pessoa qualquer, com um cheiro qualquer. Sei lá. Ou o melhor talvez será ler uma poesia desconhecida? Aquela? Sim, aquela! Rabiscada com caneta bic, em um papel-guardanapo, guardado no bolso detrás da calça, que a lavanderia não me entregou por falta de pagamento, aonde as personagens encontram-se em elipse e seus corpos transfigurados pelo tempo voraz. Sei lá também. Talvez, o melhor será ouvir uma música, cuja melodia uma bêbada inoportuna escreveu à mesa de um bar e com elegância escarrou sobre o papel. Também não, pois seria arriscado demais e eu tenho todos os medos do mundo. Então, fico inerte sobre essas quatro janelas, ouvindo The Doors - Riders On The Storm, com uma puta sensação de já ter vivido todos os ecos que agora se apresentam como um dia a mais.

-- Incitatus de Preto



Tomorrow will be different


Cá estou eu em frente a uma privada, segurando o meu pinto de perna aberta, esperando o xixi descer. Eu tive uma leve impressão de que minha bexiga estava cheia e isso já foi um pretexto para eu sair daquela sala quente. Agora estou aqui, na maior concentração, esperando o maldito xixi descer. Se bem que é melhor que ele não desça mesmo, porque eu prefiro ficar aqui do que naquela sala fria. Olho para cima, olho para o teto branco e fecho os olhos. Estou flutuando agora... flutuando num lugar branco e imenso.Encontro então o meu chaveiro e nele escrito "Seu idiota! Você mijou na mão!". Quando eu abro os olhos, assustado olho para baixo e vejo que eu... não tinha conseguido mijar ainda. Mas eu sentia que o xixi estava na ponta da cabeça e não queria sair por algum motivo. Não agüento mais ficar de pé. Sento, apoio minha cabeça nas minhas mãos e meus braços na minha coxa. Fecho os olhos de novo e agora tudo está preto, menos a minha camisa que é vermelha e uma mulher logo adiante que usa uma saia vermelha. Quem será aquela mulher? Ah, é a minha tia, aquela maldita. Resolvo abrir os olhos, pois eu odeio a minha tia, aquela fofoqueira. Mas penso melhor. Fecho os olhos de novo, pego um revólver e dou três tiros na cabeça dela. Agora sim eu abro os olhos de novo. Caem duas gotinhas do meu pinto e eu resolvo sair do banheiro. Volto para aquela sala morna e vou direto para cama, esse negócio de matar até que não era tão mau assim. Mas aí eu fico pensando "E depois? E se eu for preso?". Merda de consciência esta minha que me poda até na hora de sonhar. Perdi o sono e não vou voltar mais para aquela sala fedida. Amarro a coleira na minha cadela e resolvo dar uma volta. Seis da manhã e essa cidade está gelada e vazia. A partir daqui eu resolvo ir até o mar a pé. São 600 km, mas foda-se. Quando eu chego na metade do caminho, já vai ser a segunda vez que vai escurecer, resolvo ir dormir de novo. Então percebo que não estou mais com a minha cadela na coleira e sim que estou arrastando um esqueleto com um urubu em cima. O urubu me olha e diz "Meu amigo, essa história precisa ter um fim". Não sei o que ele quis dizer com isso naquele momento, mas acho que ele quer que eu o arraste até a praia logo. Acelero o passo, sem parar para dormir e logo chego à praia. O urubu voa até um esgoto e encontra um urubu fêmea. Os dois começam a dividir uma carniça, numa das cenas mais românticas que eu já vi na minha vida. Vou até uma barraquinha e peço um guaraná. Chega uma garota e comenta de como o tempo está quente. Ela pergunta se eu não quero ir morar na Antártida com ela. Eu respondo que sim e ela diz que só tem um problema: nós teríamos que ir a pé até lá. Eu digo que não me importo (acho que foi a emoção de ver os urubus). Vamos a pé para a Antártida e chegando lá resolvo ser escritor e quando ficar velho ser um apresentador de um programa de entrevistas na TV. Já estou na minha primeira página do meu livro e vou indo muito bem. Amanhã irei pescar. Eu, Maria e meus três pingüins. Mas eu espero que depois seja diferente.

-- Gabriel Pagnano