9.12.03

Concurso "Piores Contos Brasileiros" - O Resultado (cont.)


8º) lugar

Vitória

Ela achava que podia ser tudo, coitada. Tantos talentos, cabecinha genial. Não conhecia ninguém importante, também não participava da panelinha dos desimportantes. Mesmo se o telefone não tocasse, ela se distraía com a televisão. E se traía também. O tempo parece ser muito devagar para quem não faz nada. Em que mês estava mesmo? Já conseguia encontrar esboços de futuras profundas rugas em seu rosto. Nenhum livro seu foi vendido, nem mesmo editado. Ninguém foi aos seus shows, suas músicas não agradaram. Se pelo menos tivesse colegas para lhe mentir um elogio... Seus desenhos mantiveram-se inéditos. Seu teatro diário não tinha público. Ela dançava, sempre.
Era muito bem informada, sabia de tudo o que acontecia, apesar de nada ter presenciado. Em casa era mais confortável. Não precisava se arrumar, nem tomar banho, nem correr o risco de escutar o que não queria. Pra que correr atrás de novas frustrações se as cotidianas já lhe bastavam? Nada ambiciosa aquela moça. Com uma camiseta furada e um short largo e velho ela imaginava seus dias de glória. Viriam sim, com certeza. Ficava dias sem comer. Depois entupia-se com o que via pela frente e vomitava. O ritual do vômito era seu momento de reflexão. Os piores e os melhores momentos passavam por sua cabeça enquanto jorros de comida triturada e bílis mergulhavam na privada. Uma mistura de alívio e penitência. Era até divertido. Ela não fumava porque era demodê. Precisava preservar sua saúde para quando fosse requisitada pelo sucesso. Mas bebia. Só fortes e eficientes destilados. Cerveja é coisa de desocupado. Vinho lhe dava ânsias insuportáveis, afinal, não gostava de fazer nada obrigada. Fazia planos fantásticos pro futuro que fora ontem. De vez em quando, saía pra comprar roupas, todas guardadas no armário. Era preciso estar precavida, caso ocorresse um chamado. Os raros trinados do telefone ela ouvia calada, como se alguém a espreitasse. Escondia-se debaixo das cobertas até desistirem. Também saía para comprar vodka e alimentos. Sempre à noite, de cabelo preso e trajes simples para que não a notassem. Afinal, era uma estrela e tinha consciência de seu brilho descomunal. Isto era um grande incômodo e acabou por adotar os serviços de entrega em domicílio. Variava as lojas para evitar que o mesmo entregador a visse mais de uma vez. Amava a sua privacidade e tinha uma potente luneta para espionar a vida dos incautos vizinhos. Elaborava teorias a respeito de suas rotinas e os criticava a todos. Uma gente muito sem-graça aquela. Arrumou no mesmo cômodo tudo o que precisava: sua cama, sua televisão, seu instrumento de observação alheia, frigobar, forno elétrico e seu altar sagrado -- o vaso sanitário, escorredouro de seus dons. Tinha também um latão de lixo amarrado a uma corda que, quando cheio, ela descia pela janela para que o porteiro o esvaziasse. Aos poucos sua pele começou a descamar, quiçá pela falta de sol. Feridas foram surgindo. Delas, com o tempo, saíram ramificações, como que brotos de tamanha singularidade. Ou como trapos de tamanha decrepitude. Já não lia nem escrevia. Seu querido piano estava empoeirado e as músicas guardadas num baú bem trancado, um tesouro. Sua voz falhava por falta de uso. Os brotos-trapos cresciam tanto que começaram a pesar. E como que seguindo seu caminho natural foram se aderindo ao chão e às paredes, limitando progressivamente seus movimentos. Mas ela se adaptava muito bem às novas situações e ficou lá pacientemente parada esperando o dia em que seus dotes seriam reconhecidos e sua vida se transformaria naquele sonho tão real.

-- Renata Finaendor


7º) lugar

Fuga Desesperada dos Vales Verdes que Nunca Chegam aos Neuróticos do Coração

Ele estava decidido. Não havia mais nada a fazer para impedi-lo de sofrer. Foi até cozinha, aproveitando que seu pai havia viajado, puxou da gaveta cor de madeira a velha faca "cabo-de-osso" da época de sua mãe. Colocou-a sobre a pia. Tirou a camiseta mostrando o fraco corpo de derrotado e sofredor. Dobrou-a com todo o cuidado e colocou-a sobre o microondas. Pegou a faca, ergueu a cabeça e engoliu seco. Abriu bem os olhos, encostou a ponta congelante e assustadora abaixo do peito, engoliu seco mais um vez e ainda mais uma e então, com a força de quem sofre mais do que os esfomeados, os torturados, os culpados, as vítimas, aplicou-se um golpe certeiro. Não, engana-se quem pensava que mataria-se. Remexendo a faca em suas entranhas, utilizando o cabo como alavanca, começou a remexer veias, artérias e empurrou seu coração para fora. Expulsou-o. Condenou-o. Ao vê-lo ali, exposto ao gelado metal da pia mas ainda a ele ligado por veias e traumas, começou a chorar, sinal de que ele ainda o influenciava. Trocou a faca de mão e apanhou com vontade o coração apertado e rubro que chorava a perda de um romântico. Então arrancou-o do corpo e o jogou abaixo da torneira na pia. Com uma pequena agulha e uma linha, também da época de sua mãe, costurou seu corpo. Pontos bem feitos, racionais. Limpou-se com a água da pia deixando os pingos atingirem o velho coração esquecido. Então secou-se, colocou novamente a camiseta minuciosamente bem exposta sobre o corpo e saiu a caminhar com passos medidos, exatos. Pelo resto de sua vida não foi feliz, não foi triste. Apenas foi. Mas foi. E é.

-- Gabriel Silveira