12.12.03

Concurso "Piores Contos"


1º) lugar


Minha História


Nasci como todo mundo, depois de uma gravidez completa de minha mãe. Não foi muito agradável todo o tempo que fiquei em sua barriga. Ela sentia muita dor e o peso era insuportável. Mais os enjôos seguidos de vômitos, sempre perto de quem estava, deliciosamente, saboreando uma refeição.
Vim bem magra e comprida e chorava desesperadamente de fome o tempo inteiro. Minha mãe não tinha um pingo de leite, também pudera, meu pai, aquele calhorda, vivia de porre e sacaneando ela o tempo inteiro. Ele era um cara derrotado, que não conseguia trabalho. Minha mãe, quando casou com ele, tava muito apaixonada e achava que tudo ia mudar. Mas bem que a mãe dele tinha avisado que ele sempre tinha sido assim e que "pau que nasce torto não conserta". Mas, sabe como é, quem ouve os outros quando está apaixonado!

Gente, eu tava falando da fome que sentia e da falta de leite da minha mãe, não era? Sabe como é, um assunto puxa outro... Esse negócio de um assunto que puxa outro também é engraçado. Falando nele, lembrei que tem gente que não pode encontrar outro que já começa a falar da sua vida, não é? E pior! Fala de coisas desagradáveis como dores, enjôos e vômitos. Como é que pode?
E quando começa a falar mal do pai, aí não há quem agüente! Sempre nas histórias tem uma mãe sofredora e um pai que não presta o ar que respira. Que coisa mais desagradável!
Mas também tem muito homem safado neste mundo, não é? Outro dia soube que o marido da Anete, aquela que fornece quentinha, tinha dado uma surra nela. E sabe qual foi o motivo? Ela tava com uma roupa um pouquinho curta.
Nada demais. Mas pensando bem, ela é meio alegre demais. Uma mulher daquela idade com as coxas de fora!
Detesto falar da vida dos outros!
De que que eu tava falando antes mesmo?
Ah, deixa pra lá. Não tenho mais tempo de conversar. Até mais ver.





Menção Honrosa:


“Hasta cuando, Diós mio, hasta cuando?”


Havia flores de todas as cores no jardim dos Cavalcanti. Não apenas rosas, nem apenas rosas vermelhas, mas também rosas amarelas, cor de champanhe e cor-de-rosa. Além delas, havia cravos, mas eram cravos de uma única cor, a vermelha. Havia também crisântemos, margaridas, gerânios, hortênsias... como se uma dessas gôndolas da seção de jardinagem de supermercados houvesse derramado, nos canteiros do jardim da mansão, todas as sementes contidas nas dezenas de saquinhos ali existentes à venda, e como se alguma pessoa, dessas que têm mão boa para o plantio de flores e outras espécies de vegetais, tais como legumes e cereais, as houvesse plantado com carinho e amor, porque carinho e amor também ajudam as flores a florirem, segundo antigas lendas, hoje comprovadas por fontes bem informadas e de notório conhecimento.

O aroma das rosas, talvez por serem elas mais numerosas, predominava, todavia. Soprado pela brisa leve, que balouçava suavemente as ramagens, não apenas das flores, mas também de pequenos arbustos e até mesmo das árvores de porte médio, que também faziam parte do jardim, o aroma das rosas penetrou pela grande janela do quarto de Maria Isaura, a filha única dos Cavalcanti, que nessa época do ano, a primavera, dormia com ela, a janela, aberta, exatamente por gostar do aroma de flores naturais, especialmente o das rosas – razão de ser da predominância dessa espécie de flor nos jardins da mansão.

Também trazido pela brisa, o som do relógio da pequena capela da vila, distante da mansão cerca de um quarteirão ou pouco mais, repetiu oito vezes sua nostálgica badalada, fazendo com que Maria Isaura despertasse, interrompendo estranho sonho que há dias se repetia, sem que a donzela tivesse para ele alguma explicação – e olha que ela passava horas e horas do dia à procura dela, a explicação.

Maria Isaura espreguiçou-se com a delicadeza típica dos gestos das jovens do seu tempo, quando tudo na educação das moças era direcionado para a delicadeza: o bocejar, o sentar-se, o tomar refeições tanto no convívio da família, quanto na presença de estranhos em ágapes de cunho social, enfim, em praticamente cada gesto por ela, Maria Isaura, e por elas, as demais jovens da classe social dos Cavalcanti, executado rotineira e cotidianamente. Havia em seu semblante sinais inequívocos de uma noite mal dormida, isto é, olheiras que, talvez em alguma outra pessoa de tez mais amorenada, nem fossem notadas, mas que manchavam inapelavelmente o derredor daqueles olhos azuis, duas verdadeiras águas-marinhas incrustadas no alvo rosto emoldurado por encaracolados cabelos da cor do mais puro ouro de dezoito quilates.

“Hasta cuando, Diós mio, hasta cuando?”, indagou-se Maria Isaura, referindo-se à repetência do sonho, e o fez em espanhol porque nele, no sonho, a jovem aparecia encarnando uma duquesa da corte de Dom João 6º, forçada a casar-se com um primo em segundo grau do imperador, o duque Joaquim Emanuel Aguirre, cuja existência não era comprovada em nenhum dos livros de história da corte lusitana, consultados, com afinco de pesquisadora, por Maria Isaura, desde quando começou a sonhar o acima referido sonho. Nesse episódio onírico, Maria Isaura vivia sua primeira noite nupcial, mais precisamente o momento em que Joaquim Emanuel, a quem o imperador chamava carinhosamente de Manu, tentava romper a resistência da linda esposa, a quem, por sua vez, repugnava a aparência horrível do duque – homem quarenta anos mais idoso que ela, calvo, tendo a pele do rosto perfurada pela bexiga que quase o matara na infância e cujo dorso ostentava a deformação de uma corcunda que o impedia de se postar erectamente.

“Hasta cuando?”, repetiu a jovem, agora recostada na cabeceira da cama, acomodada por dois macios travesseiros de pena de ganso. Foi nesse exato momento que uma rajada mais forte de vento, ao mesmo tempo em que trazia para o interior do quarto o aroma de todas as flores e não apenas das rosas, soprou sobre o colo de Maria Isaura uma pequena joaninha, espécie de escaravelho muito comum, não apenas no jardim da mansão, como também em toda a região setentrional onde ficava a semi-selvagem propriedade da família Cavalcanti, propriedade aliás herdada de ancestrais chegados ao Brasil juntamente com a corte de Dom João 6º, igualmente fugidos da volúpia imperialista de Napoleão Bonaparte.

Ao perceber que as costas da pintalgada joaninha, ainda que mal comparando, se assemelhavam à repugnante corcunda do duque Joaquim Emanuel Aguirre, personagem fictícia mas absolutamente real quando aparecia em seus repetidos sonhos, Maria Isaura foi acometida de súbito infarto do miocárdio, doença incomum em pessoas da sua idade e sem antecedentes do mal em membros da família, vindo a falecer ali mesmo, onde seu corpo jovem estava recostado sobre macios travesseiros de pena de ganso, agora com os olhos azuis extasiados, imóveis, indelevelmente marcados por olheiras próprias de quem havia passado uma ou mais noites mal dormidas.

Fim.


-- Erazê Martinho



Queridos leitores, que tal? Pensam que acabou? Não, amanhã publicaremos os dois melhores contos que a comissão julgadora encontrou entre os concorrentes, e que por isso receberam a Menção Desonrosa. Depois eu juro que acaba. Precisaremos de uma lavagem cerebral?