13.11.03

Despreocupada e leve, ocupei-me da vida alheia e o tempo voou. O mundo para mim era jovem, grande e gordo. O verão sempre acabava voltando e punha-se a administrar a vida de todos. Minha casa tinha pouca luz, mas as bochechas rosadas de minha irmã a tudo iluminavam. Razão suficiente para instalar-me num mau humor profundo. Segui o curso da corrente de ar e dei com meu pai parado ao pé da escada. Olhos esbugalhados, provavelmente bêbados. Escrever acerca deles exigiria um tratamento profissional. Olhos esbugalhados excluem tudo o que não seja o esbugalho, se é que me faço entender. Tenho muita preguiça e algumas dificuldades. Uma vez um cabotino me perguntou: "Você consegue conceber a totalidade de um momento?" Engasguei com a metade de um travesseirinho de ravióli. "Francamente, isso não é assunto para o momento do jantar", repliquei. Ocorreu-me na hora que minha avó dera a mesma resposta ao ser indagada em quanto aumentaria o salário da empregada. Nossa combinação genética me parecia impossível até então. Ando obcecada por limpeza. Vasculho paredes do teto ao rodapé, procurando manchas, saliências, traças. Não posso negar que me sinto um pouco esquisita esta tarde. Há algo de calculado na minha tristeza. Algo prematuramente criado para não causar surpresa. Sempre que me sinto assim desço correndo para as ruas e me misturo com os camelôs. As aglomerações são gigantescas línguas de humanidade, ou nos excitam ou dão nojo. O que perco em arriscar? Um Jesus rabugento perambula pelos corredores. Eu vi. Em torno de sua beleza lenta um festejo de criados. Cânticos, sinos de igreja. Gostaria de acordar agora, eu não suportaria toda aquela velha ladainha outra vez. Daqui a dez minutos as mariposas entrarão pela casa e eu descobrirei que é tudo mentira. As mariposas, a casa, a mentira. Tripulante da sala de visitas, o telefone faz fila para atrair os meus ouvidos. As probabilidades de um domingo agradável me cercam feito arame farpado. Estou com 37 anos e a urna com as minhas cinzas começa a ser deslocada.
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