31.10.03

Há certas coisas que não adianta querer explicar quando as noites são longas demais e você fica dando voltas pela casa se perguntando em voz baixa como tudo começou. Moro numa rua sem saída de uma cidade pequena onde o único armazém do lugar fica na minha esquina. Quando me canso de andar, é no balcão do armazém que eu paro para pensar. O estabelecimento tem cinco metros de largura por seis de profundidade e dois bêbados fixos que não dão conta da minha presença. Atrás do balcão descascado os braços rechonchudos da dona do armazém embrulham o feijão, o arroz, a farinha, o pacote de macarrão, a lata de sardinha, o sabão em barra, o pão de fôrma já vencido. Sim, e as salsichas. Toda vez que chego com sede eu sei que só posso pedir cerveja barata, cachaça ou coca-cola. Peço a cerveja e os braços rechonchudos erguem a tampa do freezer coberto de ferrugem. São braços brancos, flácidos, onipotentes. E ocupam o espaço de todo o armazém. Quando eles se movem, os bêbados param de beber, o ar fica em suspenso e a poeira não baixa. A lâmpada engordurada não balança mais sobre a única mesa. Quem está fora não entra, quem está dentro não sai. Eu fico imóvel e ouço a tampinha da garrafa quicar no chão. Quatro vezes. Volto a piscar só quando os braços se acomodam no balcão feito uma raposa empalhada. Retomo o pensamento de onde parei. Há certas coisas que não adianta querer explicar quando as noites são longas demais.
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