5.10.03

Grandes editoras preferem não ir à feira de livros dos pobres


Inaugurada na sexta, a I Feira do Livro de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense (RJ) foi ignorada pela imprensa e não conta com estandes de nenhuma das grandes editoras brasileiras. Mais um sinal de como é discriminada e execrada a população de regiões pobres do país.

Dois acontecimentos de grande importância ocorreram sexta-feira (3) na Baixa Fluminense, Rio de Janeiro: a inauguração da I Feira de Livros de Nova Iguaçu e a abertura do III Fórum Social Carioca, este em Nilópolis.
A Feira do Livro se realiza nas excelentes instalações do Sesc de Nova Iguaçu e, ao contrário das Bienais do Livro, não cobra ingresso e ainda entrega às crianças vales de 4 reais para que comprem livros. É organizada pela prefeitura da cidade, patrocinada pela Petrobrás, com apoio da Câmara Brasileira do Livro.

Esta feira é também muito diferente das outras, especialmente daquela de Paraty – tão badalada pela imprensa. Ela acontece numa das maiores periferias metropolitanas do Brasil, tão execrada e discriminada, abrigo de grande quantidade de jovens pobres que só costuma ser citada nos jornais e na mídia em geral nas páginas policiais.

Com estas características, nem a realização da feira lhe permitiu superar a discriminação: nenhuma das grandes editoras está presente e apenas duas das médias vieram. Não há sinal tampouco da editora do presidente atual da Câmara do Livro, que compareceu à inauguração, discursou, mas parece não se sentir obrigado a prestar contas sobre algo dessa natureza.

Além disso, o tratamento da mídia é altamente discriminatório. O caderno “Idéias” do JB deu uma nota sobre a feira algumas semanas atrás e O Globo deu uma pequena reportagem no dia da inauguração. Foi só. Nenhuma das edições dos cadernos literários – “Idéias”, do JB, e “Prosa e Verso”, de O Globo – que saíram no dia seguinte à inauguração da feira publicaram uma nota que fosse sobre a programação do evento.

Que diferença com a Feira de Paraty, que contou com a participação das maiores editoras, que contou com recursos suficientes para levar bom número de escritores estrangeiros, que convidou e pagou a estada de grande parte dos editores de cultura da mídia brasileira e teve, como resultado, cobertura diária semanas antes do evento, durante sua realização e semanas depois! Mesmo Paraty sendo uma cidade pequena, cara, de difícil acesso, sem estrutura hoteleira para abrigar muita gente, obrigando o evento a se realizar em auditórios pequenos.

Tudo isso revela a falta de generosidade e de compreensão da mídia e das grandes editoras sobre a importância de um evento como este da Baixada, porque sabem que ali está um público com menor poder aquisitivo, com menor peso na mídia – em suma, pobre e marginalizado. (...)


-- Emir Sader, veja aqui matéria completa. Revoltante.