20.10.03

Ex-posição


Exposição de taças vazias e pessoas sedentas pela arte de esvaziar o copo. Eis o que acontece nessas tão esperadas aberturas de mostras artísticas nessa cidade fantasia chamada São Paulo. Performances que reavivam o parangolé, banda de rock com sotaque nacional fazendo do velho algo tão novo quanto a idade de Aguilar. Tudo bem, foi divertido, dei boas risadas com as pichações feitas em corpos embalsamados de plástico. Eu, como bom freqüentador desses eventos paulistanos queria, a princípio, descobrir onde estavam as garrafas de vinho. Afinal, fui apresentado a elas e saboreei a primeira. As outras tiveram gosto de caos artístico e pose de madame e ninfeta. Descobri que não houve curadoria, as obras foram selecionadas ao acaso ou pelo contato firmado anteriormente entre artista e pseudocurador, o que costumamos chamar por aqui de QI (quem indica?!). Uma das idéias que me ocorreram durante as passagens pelas salas era a de que algumas pessoas desejam ser confundidas com as próprias obras. Fantasiam-se. Outra delas: existe um grupo de pessoas, de uma produtora de vídeo da cidade, que se auto- intitulam “antipop” e, de uns tempos pra cá, começaram a freqüentar tais ambientes pop. Disse pra mim: “antipop é minha vozinha que assiste à missa todo dia”. Ela sim deveria criar um logo pop antipop.

Estou me achando um chato, como me achei durante o tempo em que perambulei, como um fantasma sólido, entre as cores e texturas, mármores e plásticos, estojos e pré-rupturas do pós-moderno anseio contemporâneo pela novidade, mesmo que arqueologicamente descoberta nos escombros da arte marginal de um país sem memória, onde tudo pode ser considerado novo porque já foi esquecido. Se ainda estivesse lá, escrevendo este texto, já estaria bêbado, tropeçando em alguma escultura humana, observando os famintos avançando na bandeja de torradas com patê, procurando algo naquelas obras que pudessem me dizer de perto o significado de tudo aquilo. O que menos importava naquele ambiente era justamente a causa daquela festa: a arte. Bom, ao menos tive a certeza de que cada vez mais tal desígnio “artista” pode ser aplicado a qualquer um. Seja você também um artista. Mas não freqüente aberturas de exposições. A não ser que você esteja passando fome.

Viva a paulicéia desvairada e seus tubos de ensaio.

Me dê mais um copo, ô garçom. O quê? Acabou o vinho? Que merda!!!


-- Juliano Polimeno, in Cabeza Marginal.