25.10.03

O Leblon e a identidade dos indiscerníveis



15h Sentada na praia do Leblon, distraída, meu celular toca e uma voz inconfundível e melodiosa me pergunta: Oi, o que você está fazendo? Pausa. Era Caetano. Mantive a calma. Estou lendo "Budapeste" e tomando água de côco. Pausa. Que delícia! Olhe só, você viu Preta? Preciso falar com ela a-go-ra. Interferência. Querido, não sou amiga de Preta e, por falar nisso, como conseguiu o meu telefone? Silêncio. Você não é Ana de Torquato? Pausa. Não, sou Maira de... Interferência. Alô? Alô? Clic.

15:50 Depois de um demorado banho de mar, limpo a areia dos pés na calçada e 15 minutos depois estou tomando um chope de pé no Bracarense com Ubaldo que, do outro lado do balcão, não me cumprimenta porque certamente nunca viu a minha cara na vida. Me desligo do ambiente e retomo a leitura de "Budapeste" na página 81.

16:17 Um dedinho mole me cutuca e dou com os olhos esbugalhados de Carvana me fixando. Oi, Luciana. Tudo bom? Pausa. Perdão, meu nome não é Luciana. Um cheiro de lombinho nos atropela. Puxa, acho que me confundi. Pensei que você fosse a Villas-Boas. Eu deveria dar um sorriso nessa hora mas em vez disso digo Tudo bem, estou acostumada. Os olhos esbugalhados perdem instantaneamente o interesse e se voltam para a caipirinha. Dou um gole no meu chope e duas gotas pingam na página 132. Suspiro. Pago a conta e sigo à pé para a Travessa.

17:30 Descubro na estante de filosofia o princípio metafísico da identidade dos indiscerníveis, que, resumindo, é mais ou menos assim: duas coisas no universo não podem ser absolutamente iguais. Fico aliviada mas não de todo, filósofos sempre confundem coisas e fenômenos. Subo as escadas da livraria e vou até o balcão da cafeteria. Antes que possa fazer o meu pedido, a mão suave de Marina aperta meu braço e cochicha em meu ouvido: Cilene, meu amor, me sirva por favor um café carioca, e correeendo.

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