28.9.03

Cartão-postal de uma puta em Mineápolis


Olá Charley, estou grávida
E morando na rua 9
Bem em cima de uma livraria nojenta
Na esquina da Euclid Avenue
Parei com as drogas
E não bebo mais uísque
O meu homem toca trombone
E trabalha na ferrovia

Ele diz que me ama
Ainda que o bebê não seja dele
Diz que vai criá-lo como a um verdadeiro filho
E me deu um anel que a mãe costumava usar
Sai comigo para dançar
Todo sábado à noite

E, Charley, penso sempre em ti
Todas as vezes que passo num posto de gasolina
Por causa da brilhantina que usavas no cabelo
Ainda tenho aquele disco de Little Anthony & The Imperials
Mas me roubaram o toca-discos
O que é que se há de fazer...

Aí, Charley, quase fiquei maluca
Quando o Mario entrou em cana
Por isso voltei para Omaha
Para viver com meus velhos
Mas todo mundo que eu conhecia
Ou morreu ou estava na cadeia
Então voltei para Mineápolis
E desta vez acho que vou ficar por aqui

Sabe, Charley, pela primeira vez desde o acidente
Parece que sou feliz
Só queria ter agora todo o dinheiro
Que costumávamos gastar com as drogas
Compraria uma oficina de carros usados
E não vendia nenhum
Para usar um diferente a cada dia
Dependendo do meu astral

Oh, Charley, pelamordedeus,
Quer saber a verdade?
Não tenho marido nenhum
Ele não toca trombone
E preciso de dinheiro emprestado
Para pagar o advogado
E olha, Charley, devo sair com a condicional
No dia dos namorados.


-- Tom Waits